diário de um guerrilheiro das FARC (segunda parte)

26 de abril de 2013


Antes, leia a primeira parte

Por Guy Franco

(9)
Começou a putaria. Chimichurri quer transformar a Barraca Luxúria numa sala de cinema com espaço gourmet. Perguntei de onde ele arranjaria material para isso e quem ficaria responsável pela pipoca. Chimichurri acendeu um cigarro de palha, inclinou-se na cadeira e disse, em tom confidencial, que viu projetores e rolos de filmes nas tendas dos índios tribalistas, mas que eu não contasse nada para mais ninguém. Imagino onde isso vai parar.

(10)
Como moramos no meio da mata, fomos forçados a adotar um tipo primitivo de escambo no acampamento. Até tentamos adotar uma moeda com maior liquidez como conchas, coquinhos e folhas de coca, mas percebemos que, além de estragarem rápido, acumulavam insetos em nossas carteiras. Hoje Said trocou um livro dele por uma lata de atum Gomes da Costa. Vou dar o livro de presente para o meu amigo macaco-aranha. Espero que ele goste de Gabriel Garcia Marquez. Eu, particularmente, prefiro Trotsky e os gibis da Marvel.

(11)
Da última vez que saqueamos os índios tribalistas, pegamos uma geladeira e uma panela de yakisoba. Desde então, comemos yakisoba quase que diariamente. Mas já começa a faltar mantimentos. É preciso que se faça logo a coletivização das propriedades agrícolas da Colômbia! Chimichurri concorda comigo. Ele, como eu, sentimos falta de um Stalin neste país.

(12)
Encontrei o meu amigo macaco-aranha na Grande Árvore Urinária. Ele usava uma roupinha de flanela e fumava uma erva que, segundo disse, tornava a sua visão de mundo kafkiana. Aproveitei e lhe dei o livro de Garcia Marquez de presente. Ele adorou e não soube como me agradecer, então me convidou para comer um bolo de banana em sua casa. Lá conheci sua esposa, uma linda macaquinha de lábios vermelhos e pelos bem cuidados. Estou certo de que eles são o casal mais simpático de toda a Amazônia. Quando eu já estava para ir embora, meu amigo me deu um livro de um autor chamado Friedrich Hayek. Não sei do que se trata, mas pela capa e ilustrações parece bem interessante. Até o fim de semana eu começo a ler.

(13)
Passei duas horas meditando na Barraca Preguiça sobre tudo o que o macaco me disse dia desses. Percebo agora que talvez ele estivesse defendendo a liberdade individual de maneira algo exagerada, balançando demais o rabo. E com que ódio ele criticava o protecionismo econômico. No final não cheguei a nenhuma conclusão, embora eu estivesse usando meias.

(14)
Parece que hoje só o que se vê é violência em filmes e sexo na tevê.

(15)
Chimichurri nos trouxe para a Barraca Soberba no final da tarde e contou o seu plano para saquear os índios tribalistas. Ninguém parecia bem-disposto até que ele nos informou de que os índios escondiam tablets e jaquetas Yves Saint-Laurent em suas tendas. Discutimos durante uma hora, embora parecessem vários minutos. Gostaria que Chimichurri fosse mais tolerante às opiniões divergentes. Nem todo mundo precisa concordar que o objeto mais interessante da geometria é o cilindro.

(16)
Não existe palavra para descrever o grito que ouvi da barraca de Chimichurri agora à noite. Horror, talvez. Por um momento cheguei a pensar que ele estivesse sendo sodomizado por uma anaconda. Não seria a primeira vez. Mas a história é outra; e muito mais estranha. Pouco depois de acordar o acampamento inteiro, Chimichurri apareceu na minha barraca exsudando a fúria de uma sacoleira paraguaia. A língua que saía de sua boca era expressiva e assustadora. Com uma automática em uma mão e um livro na outra, me perguntou onde eu havia conhecido meu amigo macaco. Não entendi o que estava acontecendo e dei-lhe a localização da árvore onde meu amigo mora. Chimichurri resmungou qualquer coisa, jogou o livro no chão e depois mandou seus homens pegarem tochas e foices na Barraca Ira. Saíram no meio da noite sem me dizer para onde iam. E agora estou sentindo uma pontada nos rins. Não estou gostando de nada disso.

(17)
Durante a madrugada encontrei uns minutos para refletir. Quem é na verdade meu amigo macaco? Que segredo ele esconde? Como ele faz para manter os pelos tão bem-cuidados? Foi quando vi no chão o livro que Chimichurri havia jogado; o exemplar ilustrado de Hayek. Dei uma folheada no livro e logo percebi o motivo pelo qual Chimichurri havia gritado poucas horas antes em sua barraca – aquele autor era um anticomunista! Meu amigo era um macaco-aranha neoliberal! Minha primeira reação foi de arrulhar como um pombo. Mas agora estou preocupado. Vai que Chimichurri fez alguma besteira com ele. Só me resta comer, rezar e tomar um calmante.

(19)
Hoje, sem consultar ninguém, fui procurar o meu amigo. A casa dele não existe mais, está queimada. Atearam fogo em todas as árvores do local. E nem sinal dele ou de sua esposa. Para falar a verdade, não acredito que eles estejam vivos. Vi, presa em um galho, sua roupinha de flanela balançando com o vento. Também encontrei no chão seu cachimbinho, imortalizado como carvão.

(20)
Há cinco dias não saio da minha barraca. Neste instante, ouço sons distantes na mata. Está escuro. Lá fora está chovendo. Uso uma lanterna para escrever o diário. O que eu mais queria agora é um abraço da minha filha que mora em Jundiaí. Dedico estas últimas palavras a ela e ao meu amigo, o macaco-aranha neoliberal.

diário de um guerrilheiro das FARC (primeira parte)

24 de abril de 2013


Por Guy Franco

(1)
Assim que me mudei de barraca, minhas dores nas costas desapareceram. Posso estar enganado, mas acho que Chimichurri abusava de mim enquanto eu dormia. Desde que Peña foi encontrado morto, Chimichurri não foi visto lambendo mais ninguém. Precisamos encontrar um substituto para Chimichurri à altura de Peña ou ele abusará de outras pessoas no acampamento. Said deu a ideia de sequestrarmos um índio tribalista e mantê-lo em cativeiro para satisfazer as necessidades sexuais do chefe. A ideia é furada, mas interessante. Furada porque todo mundo sabe que Chimichurri só sente atração por homens peludos, parrudos e bem-dotados. E os índios tribalistas são lisos demais; além de usarem penas para cobrir as intimidades.

(2)
Acho que foi Said quem notou uma mudança no formato de Moreira. Estaria ela grávida? A última coisa que precisamos no acampamento é de uma criança, essa pequena coisa ranhenta e burguesa. Meu pai dizia que a gestação era uma variação do capitalismo da era industrial. Nunca entendi o que ele queria dizer com isso, mas gosto de escrever essa frase atrás de cheques. Já dizia Marx que as crianças não podiam pertencer à classe operária porque seus braços eram muito curtos para apertar parafusos. O marxismo modelou o caráter e o penteado do meu pai.

(3)
Hoje dei uma volta revolucionária na mata e acabei fazendo amizade com um macaco-aranha. Trocamos pulgas e confidências comprometedoras.  Descobrimos que nossos gostos coincidem em quase todos os pontos. Preferimos o azul, abominamos a figura do palhaço e temos profundo interesse pela civilização inca. Não consigo entender por que tem gente que usa macaco como xingamento.

(4)
Chimichurri pensa em contrabandear uma droga sérvia cuja fama é fazer a pessoa se comportar como um funcionário público.  Pode ser uma boa solução para enfrentarmos a crise pela qual estamos passando. Já está quase acabando nosso estoque de agente laranja, a droga peruana com efeito alucinógeno de fazer o usuário se projetar em contos dos irmãos Grimm. Penso se não seria também o caso de contrabandearmos estimulante de engorde bovino e cigarros mentolados. O mercado brasileiro não permite a comercialização desses produtos. Tenho certeza de que podemos nos beneficiar com isso.

(5)
Qualquer pessoa com acesso a uma ereção sabe que não é possível o progresso de uma civilização de gente que não usa roupa. Hoje vi uma índia tribalista, cor de chocolate, nadando peladinha, peladinha no Rio Tapacu. Por alguns segundos me vi transformado em um mosquito do gênero anopheles e sobrevoei pelo corpo dela. A minha vontade era de picar cada curva, cada morro, cada buraquinho. Difícil me concentrar. Não sei como os brasileiros conseguem se viram.

(6)
Não consigo dormir. Um inseto em forma de intestino entrou na minha barraca e agora eu não sei onde ele está. Sinto um cheiro de alcaparra bem próximo de mim, mas não consigo encontrar o bicho de jeito nenhum. Sinto como se eu estivesse preso num filme de Cronenberg e que a qualquer momento minha cabeça poderia explodir.

PS: Parece que Moreira engravidou mesmo. Espero que a criança puxe o pai, seja da espécie que ele for.

(7)
Hoje eu me encontrei de novo com o macaco-aranha. Desta vez não trocamos pulgas. Passamos a tarde toda falando de Confúcio, Estado laico e cogumelos alucinógenos. Que bicho extraordinário! Preciso arrumar uma lembrancinha para ele. O que será que os macacos gostam de ler?

(8)
Quando estourou a Revolução, eu ainda era um efebo cheio de espinha na cara. Lembro que naquela época minha casa era frequentada por intelectuais, artistas renomados, jornalistas e fisioterapeutas com cara de lontra. Todos muito bem-educados e elegantes, embora falassem muito alto e cuspindo. Meu pai virou comunista quando um vaso de cerâmica caiu em sua cabeça em 1958. Naquele tempo, o socialismo se pegava pelo ar, então era comum ver gente usando máscara contra gases andando pelas ruas de Bogotá. Um dos momentos mais marcantes da minha vida foi quando flagrei meu pai carregando uma arma em seu quarto. Foi ali que eu descobri que ele participava de um grupo revolucionário chamado Los Autenticos Perros. Poucas semanas depois disso, meu pai foi morto enquanto tentava assaltar uma loja de brinquedos num bairro protofascista da cidade. Os revolucionários que sobreviveram foram capturados com dinheiro dentro de bonecas e palhacinhos de pano. Oito anos depois, um desses revolucionários veio me procurar para pagar uma pensão pela morte de meu pai. Também pediu que eu me juntasse à guerrilha, na luta por um mundo mais justo - tudo o que eu precisava fazer era praticar extorsão e sequestros. Aceitei na hora. Naquela época eu já havia pegado comunismo na universidade de Bogotá. Esse revolucionário é Chimichurri. Hoje ele é o nosso comandante militar e chefe espiritual.


lista atualizada de minorias desfavorecidas 2013

27 de dezembro de 2012


Crackeiros, nóias e dependentes de drogas pesadas (desde que de origem humilde)

Ladrões que não tiveram condições na vida

Assassinos que não tiveram condições na vida

Quengas

Bi-curious

Ciclistas brancos da avenida Paulista

Cães da raça yorkshire

Funkeiros semi-alfabetizados

A nova classe média

Monocelhas

Meninos que se parecem meninas mas que na verdade são lésbicas insatisfeitas com o sistema

Bissexuais com mais de 30 anos

Assinantes da revista Caros Amigos

Piauienses (desde que de origem humilde)

Crianças gordas

Crianças dependentes de drogas pesadas

Crianças dependentes de Mc Lanche Feliz

Mariana Kupfer

Zé Dirceu

Bolivianos em regime de semi-escravidão

Bolivianos em regime de Mc Lanche Feliz

Chubby, Bear, Chubby Bear, Gummy Bear e Lontras

Usuários de Internet Explorer

Astrid Fontenelle

Funcionários do Sesc

entrevista de namoro

22 de outubro de 2012


Por Guy Franco 

Tomas não namorava há mais de dois anos. Teve um caso passageiro com um estudante de ciências sociais durante um tempo, mas terminou com ele assim que descobriu que o rapaz, além de ser leitor de Bukowski, ainda frequentava saraus de poesia. Foi Edgar quem teve a ideia de criar um anúncio no jornal para encontrarmos um namorado digno para ele. Tomas não sabia de nada. Começamos a entrevistar os primeiros candidatos no último feriado, aqui em casa. Júlia estava junto. E dava sinais de impaciência porque queria ver o desfile da independência na TV.

JÚLIA: Que entre logo o primeiro candidado.

Ele entrou. Era um rapaz magro, meio ruivo e cheio de sardas no rosto. O corte de cabelo era de criança e não combinava com a idade dele. E alguma coisa entre a testa e o queixo dava a impressão de que ele era progressista (ou no mínimo que ele era a favor do aumento de IPI para veículos motorizados). Devia ser o nariz.

GUY FRANCO: Você é progressista?

CANDIDATO 1: Sou.

GUY FRANCO: Tomas é liberal. Ele não tem nada contra progressistas, tem até uma moça que limpa a casa dele que também é, mas é bom deixar claro desde já que ele não tolera compartilhamento de infográficos fajutos contra o capitalismo.

CANDIDATO 1: Não sou um desses.

GUY FRANCO: Ótimo. Tem tatuagem?

CANDIDATO 1: Tenho um estegomano pequeno no ombro.

JÚLIA: O que é um estegomano, meu Deus?

CANDIDATO 1: Uma criatura mítica metade estegossauro e metade humano.

GUY FRANCO: Podemos ver?

CANDIDATO 1: Claro.

O rapaz mostrou a tatuagem. Júlia se levantou para ver. Edgar tirou uma foto da tatuagem e postou no Instagram com o título "tattoo". Imediatamente, três pessoas favoritaram a foto.

JÚLIA: Você já pode pôr sua camiseta de volta se quiser.

Ele não quis.

GUY FRANCO: Aqui no seu currículo diz que você é jornalista.

CANDIDATO 1: Isso mesmo.

GUY FRANCO: E quando você contou para os pais que era jornalista?

CANDIDATO 1: Os meus pais não sabem de mim. Não da minha boca. Desconfiam, claro, passo muito tempo longe da família e nunca levei dinheiro suficiente pra casa.

EDGAR: E não pretende contar?

CANDIDATO 1: Não agora. Já foi muito duro quando eles descobriram que eu participava do diretório acadêmico da minha faculdade.

EDGAR: Passei por isso também.

Júlia puxou um binóculo de teatro do século XIX de dentro do casaco.

JÚLIA: Engraçado, você me lembra alguém; alguma pessoa famosa.

CANDIDATO 1: Dizem que eu sou parecido com o Michael C. Hall, o ator de Dexter.

JÚLIA: Não, definitivamente não é ele que você me lembra. Você parece um ajudante de palco do João Gordo. Com a diferença de que você não é nanico.

EDGAR: Bom, isso é tudo. Você já pode ir. Entraremos em contato assim que tivermos uma posição.

Candidato 1 deixou umas balas de canela na mesa dos entrevistadores e saiu da sala sem a camiseta.

EDGAR: Gostamos dele?

JÚLIA: Gostamos da tatuagem dele. E das sardas. E dos mamilos.

GUY FRANCO: Não sei. Existe alguma coisa de delinquente na cara dele.

JÚLIA (pondo uma bala de canela na boca): Sem dúvida que existe. Mas enfim, que entre o próximo candidato.

E ele entrou. Esse tinha cara de peruano. Mas um peruano com cara de argentino. Mas um argentino com cara de turco otomano à beira de cometer um massacre de armênios. Era a barba - espessa, escura e sórdida, como toda barba deveria ser.

JÚLIA: Parabéns pela barba. Já ganhou pontos com Tomas. Vou anotar aqui, 40 pontos.

CANDIDATO 2: Obrigado.

GUY FRANCO: Posso perguntar por que não usou exclamação agora na hora de agradecer a Júlia?

CANDIDATO 2: Não achei que fosse necessário. Ia parecer que eu estava forçando uma intimidade que não tenho com nenhum de vocês.

GUY FRANCO: Um cara comedido. Tomas gosta disso. Mais 40 pontos.

JÚLIA: Você fuma?

CANDIDATO 2: Não.

JÚLIA: 30 pontos. Curte aditivos?

CANDIDATO 2: Cheiro antraz, mas só socialmente.

JÚLIA: 20 pontos. E poesia concreta, gosta?

CANDIDATO 2: Não sou chegado em drogas mais pesadas.

JÚLIA: 150 pontos. Se não for pedir muito, podemos ver os seus mamilos?

CANDIDATO 2: Claro.

E ele mostrou os mamilos. Júlia puxou o binóculo do casaco outra vez.

JÚLIA: O que estamos vendo são peitinhos, é isso mesmo?

CANDIDATO 2: São peitinhos.

JÚLIA: Sinto que tenha perdido 440 pontos com esses peitinhos. Tomas odeia peitinhos. Mas nós gostamos muito de você. E de peitinhos. Mesmo que não tenha nenhuma chance com Tomas, pode ficar aqui com a gente pra ajudar a escolher um namorado pra ele se quiser.

E ele quis. Guy Franco pegou uma cadeira na cozinha para Candidato 2 sentar com eles. Edgar tirou uma foto dos peitinhos e postou no Instagram com o título "agora vamos falar de coisa boa?". Candidato 2 cheirou um punhado de pó de antraz que tirou do bolso. Mônica Bergamo escreveu um texto na Folha de São Paulo e criou polêmica entre os assinantes mais conservadores.

JÚLIA:  Que entre o próximo candidato.

E ele entrou. E foi logo sorrindo. O cabelo crespo, escuro, e uma barba que deveria abrigar um ecossistema próprio, lhe conferia um ar de mendigo por opção. De certos ângulos se passaria facilmente por um cigano, enquanto do ângulo em que Júlia o via, sentada, ele era a cara de Marcelo Camelo.

JÚLIA: Mas que maravilhoso organismo vivo temos aqui! Já te disseram que você se parece com Marcelo Camelo?

CANDIDATO 3: Eu sou o Marcelo Camelo.

JÚLIA: Não brinca!

E era mesmo Marcelo Camelo. Ele estava acompanhado de uma menina ossuda com olhar vago e piedoso. Na sombra das olheiras da menina ossuda era possível observar dois pintinhos tirando uma soneca.

MARCELO CAMELO: Vi o anúncio no jornal e fiquei comovido com o caso de Tomas. Posso ficar descalço?

JÚLIA: Fique à vontade. O que você vai cantar pra gente hoje?

MARCELO CAMELO: Chico.

JÚLIA: O palco é todo seu.

Marcelo Camelo cantou Chico. A menina ossuda puxou um pandeiro de dentro da saia e tocou com ele. Os pintinhos acordaram e começaram a dançar em cima da mesa dos jurados, em meio às balas de canela. Júlia e o Candidato 2 batiam palmas. A música era linda e livrava a alma da ira ou outros bruxismos, como o mau hálito. Tudo era maravilhoso. Os outros candidatos apareceram na porta para espiar a entrevista barulhenta. Um deles tirou um piano de dentro do bolso e invadiu a audição. Chico alcança a todos independente de raça ou religião. Chico é profundo mesmo falando de azeitona preta.

JÚLIA: Lindo, lindo.

MARCELO CAMELO: Obrigado.

O candidato do piano, um rapaz pintoso contaminado pela doçura da manhã, estava de olhos fechados, contendo lágrimas. Ele se chamava Candidato 33.

CANDIDATO 33: É uma honra poder tocar com Marcelo Camelo.

MENINA OSSUDA: É por isso que me casei com ele.

Marcelo Camelo e a menina ossuda se beijaram. Os outros candidatos invadiram a sala. Muitos estavam chorando ou falando do último episódio que viram de Homeland. Luiz Felipe Pondé criticou a Marcha das Vadias e recebeu uma nota de repúdio de uma blogueira lésbica e gordinha.

GUY FRANCO: Que entre o próximo candidato.

O candidato seguinte já estava na sala, junto com todos os outros. Ele desdobrou um lenço e pediu com a cabeça para Guy Franco lhe dar uma moeda. Guy Franco lhe deu uma moeda. O candidato fez a moeda sumir e então recebeu aplausos calorosos. Depois fez a moeda reaparecer no meio da barba de Marcelo Camelo. Recebeu então aplausos mais calorosos ainda.

GUY FRANCO: Você é muito talentoso, mas hoje vai ser um não, ok?

JÚLIA: Pra mim é não também. E você, Edgar?

EDGAR: Pra mim é não.

CANDIDATO 2: Pra mim é sim.

MARCELO CAMELO: Pra mim há muito mais entre o céu e a terra.

MENINA OSSUDA: Pra mim deveríamos proibir o consumo de foie gras em todo o país.

CANDIDATO 33: Pra mim é um sim.

LUIZ FELIPE PONDÉ: As mulheres gostam de apanhar.

BLOGUEIRA LÉSBICA E GORDINHA: Isso é um discurso machista e preconceituoso.

PINTINHO: Piu.

CANDIDATO 144: Não procuro nada porque não perdi nada. Definir é se limitar.

MÔNICA BERGAMO: Pesquisa revela que maioria dos americanos sabe que se fala português no Brasil. Pra mim é um sim.

MARISA ORTH: Pra mim é não, tá, querido?

NELSON RODRIGUES: Nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais.

SONINHA: Véi, na boa.

LOLA: Todo homem é um estuprador em potencial.

CLAIRE DANES: Pra mim é não.

MITT ROMNEY: Pra mim é não.

CLINT EASTWOOD: Meu.

HELOÍSA PÉRISSÉ: Pra mim é não, mas vamo que vamo.

sakamotinho

27 de setembro de 2012



o ciclo das polêmicas na internet

18 de setembro de 2012


Por Guy Franco

Polêmica: Racismo
Frequência: Mensal
Como tudo começa: Alguém é chamado publicamente de macaco.
O que mais se ouve:  "Temos uma dívida histórica com os negros", "Não vejo diferença entre usar uma camiseta com 100% negro ou 100% branco", "A diferença é que os negros foram escravizados durante séculos", "E por que ninguém fala nada de cota para negros no esporte?", "E quando aparece negro na novela é sempre fazendo papel de empregada doméstica", "O que você tem contra empregada doméstica?", "Nada, o que eu quis dizer é que negros sempre pegam papéis de subordinados", "Mas você não acabou de falar que essa é a realidade do negro no país?"

Polêmica: Homofobia
Frequência: A cada 2 ou 3 semanas
Como tudo começa: Gays ou algo muito parecido com gays são espancados sem motivo na rua.
O que mais se ouve: "PLC 122 já!", "O Estado é laico", "A bancada evangélica impede o avanço deste país", "E se no lugar de um gay fosse um negro?", "E se no lugar de um gay fosse a sua mãe?", "Discurso de ódio não é liberdade de expressão", "Silas Malafaia impede o avanço deste país", "Eu, felizmente, não gosto de futebol! Acho que é uma sociabilidade masculina que se afirma contra a homossexualidade".

Polêmica: Machismo
Frequência: A cada 2 semanas
Como tudo começa: Com uma piada.
O que mais se ouve: "A porra da buceta é minha!", "O Estado é laico", "Tiramos a roupa e mostramos os seios como protesto contra o machismo", "Propaganda de cerveja objetifica a mulher porque as mostram sem roupa", "E ainda tem gente que vem me dizer que homem também apanha", "Precisamos de homens feministas", "Clique aqui e conheça um homem que usou uma saia kilt para entender o preconceito".

Polêmica: Piada
Frequência: A cada 2 semanas
Como tudo começa: Alguém faz uma piada infeliz envolvendo gay ou mulher ou negro ou pobre ou qualquer outra minoria desfavorecida em evidência no momento.
O que mais se ouve: "Discurso de ódio não é liberdade de expressão", "Era só uma piada", "Não, não era só uma piada", "O problema é que a piada não era engraçada", "Ele quer a qualquer custo defender uma piada preconceituosa", "Você pode fazer a piada mas vai ter que responder pelas consequências", "A porra da piada é minha!", "O Estado é laico", "A piada é discriminatória, misógina e fascista", "E se no lugar da piada fosse um negro?".

Polêmica: Aborto
Frequência: A cada 2 meses
Como tudo começa: STF ou outro órgão do governo resolve discutir o conceito de vida.
O que mais se ouve: "A mulher é dona do próprio corpo", "O Estado é laico", "Embrião do tamanho de um grão de feijão não tem autonomia", "Quem tem dinheiro pode fazer aborto", "Pobre não pode fazer aborto", "É preciso dar condições para o pobre fazer aborto", "Chega de ver pobre nascendo", "É só um abortinho", "O Estado é laico", "A porra da buceta é minha!", "10 dicas de aborto, clique aqui".

Polêmica: Classe Média
Frequência: Semanal
Como tudo começa: Um sujeito que ganha mais do que cinco salários mínimos reclama de alguma coisa - qualquer coisa.
O que mais se ouve: "Classe média sofre", "A classe média paulistana é protofascista", "Marilena Chauí é uma intelectual brilhante", "A classe média é conservadora e reacionária", "A classe média é misógina", "A classe média paulistana é nazista", "A classe média é neopentefascista", "A classe média é protonazipseudocult", "O Estado é laico", "E se no lugar da classe média fosse a porra de uma buceta nazista?"

Polêmica: Bicicleta
Frequência: Mensal
Como tudo começa: Um ciclista branco de classe média é atropelado na avenida Paulista.
O que mais se ouve: "Precisamos de mais ciclovias", "Não dá mais pra ter carro em São Paulo", "O trânsito é desumano", "Precisamos aumentar o preço do carro, não diminuir", "Em país de primeiro mundo não é o pobre que tem carro, mas o rico que anda de transporte público", "Os motorizados não têm respeito", "Até Hitler tinha lá sua simpatia pela bicicleta", "A direita brasileira motorizada é pior do que Hitler".

Polêmica: Crack
Frequência: A cada 3 meses
Como tudo começa: O governo resolve dar um jeito na cracolândia.
O que mais se ouve: "Evacuam a região por causa da especulação imobiliária", "O crack é a droga que mais vicia", "O problema do crack é que ele não mata tão rápido assim", "Você encontra até mulheres grávidas na cracolândia", "O crack é um problema que atinge todas as classes sociais", "Estou falando de crack, não de gummy bear", "Drogados, não - dependentes químicos", "Os dependentes do crack são vítimas", "Clique aqui e conheça o mapa do crack", "A ação da polícia parte de uma política higienista", "Clique aqui e conheça receitas com crack".

Polêmica: Ateísmo
Frequência: A cada 2 ou 3 semanas
Como tudo começa: Declarações do Datena, Silas Malafaia ou Papa.
O que mais se ouve: "Isso é falta de Deus no coração", "O Estado é laico", "Religião não define caráter", "Tem gente que leva o ateísmo como se fosse uma religião", "Meus amigos ateus falam mais de Deus do que meus amigos católicos", "A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico", "Os países mais desenvolvidos têm o maior número de ateus", "O Estado é laico", "Clique aqui e conheça o mapa do ateísmo no mundo", "Clique aqui e conheça a porra de uma buceta ateísta", "E se no lugar de um ateu fosse um negro?", "O Estado é laico", "Charles Chaplin era ateu; Hitler acreditava em Deus e tinha simpatia por bicicleta", "Clique aqui e conheça um ateu negro de classe média", "E se no lugar de uma buceta negra fosse um homossexual motorizado?", "E se no lugar do Estado laico fosse uma Marilena Chauí negra, mulher e homossexual?", "Clique aqui e conheça a Marilena Chauí", "Clique aqui e conheça a Lola", "Clique aqui e conheça o yorkshire do Olavo de Carvalho", "Aumente o seu pênis", "Clique aqui e conheça o aborto de um ateu".

a nova cara da família brasileira

4 de setembro de 2012


Por Guy Franco

Nos últimos anos, o número de casais com filhos diminuiu consideravelmente em todo o país. A estrutura familiar brasileira já não é mais a mesma de vinte ou trinta anos atrás, quando usávamos ombreiras e mullets como forma de contraceptivo. Existem cada vez mais casais sem filhos, mães solteiras, pais separados, idosos que moram sozinhos, solteironas que moram com os gatos em apartamentos minúsculos, colônias de asiáticos que moram em minivans e casais gays. A família brasileira está de cara nova. A maioria dos lares já não é mais composta por pai, mãe e filhos, mas sim um novo arranjo familiar que se forma de acordo com a necessidade de cada um.

Para o professor de Psicologia da Família Unida Indiretamente (PFUI), Alex Avelar, essa é uma tendência mundial importada de países desenvolvidos com água tratada. "Até 2780 o modelo familiar será composto de 0,8 habitantes por casa", afirma. "Caminhamos para um mundo onde ter um filho será a 35ª preocupação de uma pessoa, atrás de TV a cabo, viagem para a Europa e a sobremesa", brinca o professor.

Não é difícil de encontrar uma estrutura familiar fora dos padrões estabelecidos pela ABNT. Marcelo Pereira dos Santos e Cláudio Menezes são casados há 11 anos e dizem nunca terem sofrido preconceito por morarem juntos. "Casamos para irritar nossos pais. Não deu certo. Eles nos aceitaram numa boa. Não entendo por que casamento gay é visto como maravilha revolucionária enquanto uma mulher que deseja casar se passa por sonsa e Amélia", diz Marcelo, jogando o cabelo para o lado.  Apesar da pressão do meio em que vivem, o casal não pretende adotar uma criança. No entanto, estão negociando com um asilo para cuidar de um senhor judeu com Alzheimer para ser o avô que ambos nunca tiveram. "Queremos uma influência de outra geração e outra cultura aqui em casa. Alguém com mais experiência de vida e que saiba contar histórias de guerra repetidas vezes para nos fazer dormir".

Em Diadema, Grande São Paulo, uma antiga loja de pescaria é o lar de uma família de seis crianças. Vitória, a menina mais velha, abandonada num pote de sorvete assim que nasceu, é quem cuida das tarefas domésticas. Seu marido, Uilliam, 11 anos, é corretor de uma imobiliária e contribui com a maior parte do orçamento, que ainda é dividido entre o filho de 2 anos, Cauã, duas irmãs lésbicas e um menino negro com transtorno bipolar que encontraram na praça de alimentação de um shopping. "Posso dizer que a minha família é a mais estruturada da rua", diz Vitória, enquanto frita um nugget para o filho com vitiligo, "Nossos vizinhos do lado vivem brigando. Bebem e brigam. Aqui em casa ninguém bebe. Não vendem bebida pra menores. A única coisa que vendem é isto aqui", Vitória aponta para uma caixinha de leite em pó instantâneo sobre a mesa.

A família brasileira é tema de pesquisa de Alex Avelar há mais de 30 anos. "Se antes a prioridade de uma pessoa era de se casar e constituir uma família, hoje o sujeito prefere pensar em sua carreira, fazer um intercâmbio ou participar de promoções nas redes sociais", diz o professor. Alex Avelar também foge dos estereótipos familiares mais comuns. Apesar de morar com os pais e os avós paternos, estes não estão mais vivos. Alex Avelar mantém intactos os esqueletos de cada membro da família na posição que eles mais gostavam ficar. "Minha mãe é a que está sentada lendo Agatha Christie", aponta. "Meu pai é aquele abrindo a gaveta para procurar as chaves do carro. Minha tia e meu avô estão acariciando o esqueleto do gato e consertando o chuveiro lá de cima, respectivamente."

Alex Avelar nunca se casou e não pretende ter filhos. Nem por isso sente-se sozinho. Alex Avelar, Marcelo Pereira do Santos e a menina Vitória representam a nova cara da família brasileira.


o voto consciente

22 de agosto de 2012

Por Guy Franco 

Pedem o voto consciente. A legião de rapazes que usam sandálias de couro pede, com a voz molenga característica da falta de vergonha na cara, o voto consciente. E se você deixar a conversa continuar perceberá que voto consciente nada mais é do que votar no candidato dele. Há vermes achatados e vermes cilíndricos. Alguns são parasitários, como os que pedem o voto consciente.

O meu voto é consciente - tenho consciência de que estou votando em qualquer porcaria. O critério que uso para votar é tentar imaginar o candidato bebendo comigo. Não vale em churrasco (os piores candidatos são aqueles que você consegue imaginar em um churrasco), precisa ser em um bar da minha escolha. Que seja um boteco. Se não consigo imaginar o candidato lá, bebendo comigo e ouvindo o que tenho para falar dos livros que li e dos filmes que assisti, ele não tem o meu voto. Nenhum candidato a vereador ou prefeito que nunca viu um filme de John Ford ou Howard Hawks merece ser eleito. Isso que é voto consciente.

10 considerações sobre os homofóbicos

21 de agosto de 2012


Por Alex Passos

1) Homofóbicos são fáceis de serem reconhecidos pelo mau gosto. Eles se vestem mal. As frescuras e firulas, essenciais à beleza e à arte, são departamentos que sempre pertenceram aos homossexuais, ainda que estejam em decadência nos gays de hoje em dia. Homofóbicos abominam qualquer contato com a beleza; e acreditam que homossexualidade pega.

2) Para ajudar a identificar um homofóbico, procure situações comuns a heterossexuais e troque por gays para ver se elas incomodam o sujeito a ponto de ele ficar nervosinho e virar os olhos, bufar, ou contar uma piada que não faria na frente da mãe.

3) Não é de bom tom chamar um gay de bicha, por mais bicha que ele seja. A regra se estende. Não chamar o gordo de gordo, o velho de velho e a anã de anã. Sobre trocar e inverter os nomes, ninguém se pronunciou ainda. Na dúvida, nunca chame os amigos daquilo que eles realmente são.

4) Li em algum lugar que homofóbicos têm vontade de agredir gays porque, inconscientemente, desejam contato físico com eles. Não sei se acredito nisso, mas dá o que pensar qual seria a interpretação de Freud em relação ao formato da lâmpada fluorescente usada no episódio de agressão da Avenida Paulista.

5) O homofóbico é antes de tudo um neurótico com fixação pela coisa. E enquanto não se tratar, continua com os tremeliques e sem falar coisa com coisa. De fato é curioso como a cabeça balança enquanto incita a violência, já fora de si, espumando pela boca.

6) Um tipo comum de homofóbico é o invejoso. Ele não suporta reconhecer em seu semelhante gay certas vantagens que nele foram podadas na infância, como dobrar as pernas do jeito que quiser e mover as mãos da maneira que bem entender. Usar calça apertada e poder bater no companheiro também são conquistas de causar inveja a qualquer um. Daí o ódio.

7) O pior tipo de homofóbico é aquele que não permite a inclusão de um gay em seu círculo de amizades. Estatisticamente, com mais de 10 amigos há grande risco de pelo menos um deles ser gay. E, infelizmente, preciso dizer, mas se você tem certeza de que nenhum de seus amigos é gay, de repente quem beija rapazes é você.

8) É bem característico de um homofóbico ser covarde e atacar em grupo, quando a vítima não tem defesa. Apesar das críticas, o termo homofobia se faz apropriado. É medo de enfrentar o outro cara a cara.

9) Falar que a homossexualidade não é natural não chega a ser homofobia, mas ignorância. E se disser que não é coisa de Deus, e que gays não vão para o céu, como explicar de onde vem o arco-íris?

10) Quem estiver lendo este texto para saber se é homofóbico, sinto informar, não são. O homofóbico é justamente aquele que não corre atrás de informação; sequer lê. Tudo o que sabem absorveram por osmose. Daí o preconceito e a intolerância, que pegam do ar, em ambiente fechado.

a televisão está manipulando você

1 de agosto de 2012

Por Guy Franco


Quanto mais assisto à televisão, mais convencido fico de que estamos sendo diariamente manipulados pela mídia. E a televisão aberta é, de longe, a pior de todas as cinco mídias, incluindo aí a internet e as embalagens de produtos alimentícios. São telejornais que distorcem fatos, programas vespertinos que enfiam produtos desnecessários pela goela de donas de casa humildes, novelas que se recusam a mostrar o beijo gay (sim, omissão também é uma forma de manipulação) e até propagandas de lancheiras do Ben 10 com mensagens subliminares de pedofilia e imagem de pênis passando no intervalo de desenhos animados. Nem as nossas crianças são poupadas dos tentáculos sujos do capitalismo. A televisão aberta é o câncer do Brasil e, arrisco a dizer, o câncer do país inteiro.

A mídia é o quarto poder no Brasil. Se ela quiser derrubar uma presidenta, ela derruba. Estamos nas mãos de um grupo reduzido de milionários flácidos que elabora estratégias para nos manipular enquanto janta em restaurantes caros, maltratando os garçons e os chamando de "campeão" ou "amigo" ou "Ademar" ou "Ademar, eu pedi um bife mal passado. Isto aqui tem cara de mal passado pra você, Ademar?" São uma gente bem nascida que sequer pegou um ônibus na vida. E sabemos que quem nunca pegou um ônibus na vida não tem direito de discutir nada. Os bem nascidos, os mendigos e os cadeirantes que nunca subiram em um ônibus não têm direito de discutir nada. Essa é a regra. É assim que as coisas funcionam.

O Jornal Nacional decide quem vai ser o próximo presidente

Parece um tanto óbvio o poder do Jornal Nacional na mente das pessoas de bem. É impressionante a influência de cada palavra dita por William Bonner na bancada do telejornal. As palavras mais ditas por Bonner nos último anos "é", "hoje", "boa noite", "esquema", "brasileirão", "para", "o", "presidente" são dispostas de maneira que nos estimula a escolher este ou aquele candidato, sem percebermos. As gravatas de Bonner são escolhidas de acordo com as cores dos partidos políticos apoiados pelo grupo reduzido de milionários flácidos que maltratam garçons em restaurantes caros.

Ana Maria Braga incentiva o bullying

Depois que a Ana Maria Braga foi para a Globo, os casos de bullying aumentaram 23% no país. Segundo estudo recente, os telespectadores do programa estão sujeitos a pegar demência do tipo B (facilmente diagnosticada pois deixa o cabelo das mulheres com a cor de caneta marca texto) e passaram a ser motivo de chacota. Se em um dia Ana Maria Braga mostra uma receita saudável e que faz emagrecer, pode ter certeza de que no dia seguinte vai aumentar o número de bullying com gordos. Uma sociedade que acha normal passar na TV receita de comida saudável e que incentiva uma alimentação menos calórica, é uma sociedade doente, pois isso só mostra como ainda temos problema com os nossos gordos.

A novela manipula o que você fala

E uma vez em que você está sendo manipulado para falar, também está sendo manipulado para pensar. Os roteiros das novelas são cuidadosamente elaborados para fazer o telespectador pensar de acordo com os milionários flácidos. E se chamamos o garçom de "amigo" ou "campeão" foi porque a novela pôs essas palavras em nossa boca. Outras palavras que as novelas colocaram em nossa boca nos últimos anos: alegria, suburbano, Acre, leite de pera, Leandra Leal, frequência cardíaca, pedofilia, o negócio é o seguinte, Floripa, engenhoca, exemplo de superação, heteronormatividade, Zezé, gostou leva pra casa, reaça, baioneta, Fernanda Torres, benga, João Paulo Cuenca, dia das mães, dia do estupro, emancipação masculina e evangélicos.

Luciano Huck e a dengue

Sabemos que a H1N1 foi uma estratégia de marketing da mídia golpista para vender álcool em gel e lubrificantes íntimos. Nos últimos anos, a dengue também vem sendo usada para nos manipular e vender produtos das empresas de Luciano Huck. Os escândalos que envolvem as empresas de Luciano Huck não são novidade. Em 2010, o derramamento de petróleo no Golfo do México foi usado para vender motos Dafra, produto de uma das empresas do apresentador.

Lembre-se: nem tudo o que você vê na televisão é verdade. Desconfie de tudo o que você ouve. E, principalmente, não confie em quem tem a voz alterada eletronicamente. Às vezes o apresentador do seu programa preferido não existe. Com o avanço da tecnologia depois das urnas eletrônicas, é perfeitamente possível usar a computação gráfica para criar um apresentador falso. A Angélica pode ser um desenho animado; a Fátima Bernardes, um boneco de marzipã manipulado quadro a quadro usando técnicas de stop motion. Quem pode provar que elas realmente existem? Desconfie de tudo o que você vê na televisão aberta. E jamais confie em quem parece que foi feito de plástico.

falta leitura, humor e vergonha na cara

17 de julho de 2012

Por Guy Franco

Comecei a guardar uma coleção de insultos direcionados a mim. Um dia reúno todos os insultos aqui no blog. A maioria dos insultos vieram de gente do bem. Existe uma turma do bem, transbordando de boas intenções, pregando a justiça e a paz. Mas ai de você discordar ou brincar com o que eles dizem! Eu brinquei. E agora pretendo emoldurar todos os insultos que recebi. Aqui uma amostra deles:

Insultos que recebi

Lembram da homofóbica do CCBB? Ano passado perguntei no Twitter se ela estaria recebendo água no calabouço onde ela deveria estar presa. Um militante gay, razoavelmente conhecido no meio, e que escreve para uma revista, além de ter um programa de entrevistas, questionou minha brincadeira. Disse que eu estava chamando os militantes de carrascos. Mas não, eu não estava. Era apenas uma brincadeira, uma piada, veja bem. Ele, que também é professor de comunicação, não entende piada e disse que eu, como um criminoso que havia matado dois gays naquela época, era um infiltrado na comunidade LGBT. Isso mesmo, fiz uma piada com a mulher pirada do CCBB e fui comparado a um assassino pelo militante descamisado.

Ainda no Twitter, em outra ocasião, horas antes de uma marcha contra a homofobia, perguntei se uma chuva durante a passeata poderia ser considerada homofobia. Uma piada inofensiva, você pensa. Mas não para um outro militante gay, organizador da marcha, que ficou indignado com a minha piada da chuva. Disse que era discriminatória. Não me lembro se depois expliquei a piada para ele. E mesmo que tivesse explicado, já aprendi, esse tipo de gente ouve o que quer e não o que você diz. Além de não ter nenhum senso de humor, o que é pior.

Só mais um caso, também no Twitter: No dia seguinte ao episódio de Bolsonaro e Preta Gil, retuitei um comentário em que dizia que os filhos de Bolsonaro, pelo que escreviam no Twitter, pareciam ter recebido melhor educação na escola do que Preta Gil. E é claro que fui xingado por ter apenas retuitado isso. Afinal, Preta Gil é o exemplo de mulher instruída e eu nunca havia percebido. Erro meu. Um retuite desses e eu não estou do lado dos gays, sou homofóbico e tal.

Foi em cima dessas atitudes exageradas de alguns dos militantes gays, que não toleram nem a piada mais inofensiva, que escrevi um texto na revista ALFA. Repito: alguns dos militantes gays. Mais uma vez: alguns (essa parte parece que não entenderam direito e precisa ser repetida em todo texto que escrevo). A reação de alguns com o que escrevi na revista, como era de se esperar, foi a mesma, uma indignação sem cabimento. Aos que faltaram nas aulas de interpretação, o texto era discriminatório. Homofóbico e discriminatório. Não faltaram manifestações indignadas desse tipo na minha caixa de email. Mas se manifestar para acusar meu texto de homofóbico e discriminatório só prova o que escrevi lá: há sim um exagero por parte de alguns.

Infelizmente esses alguns são os que mais gritam. Eles costumam estar em evidência justamente porque gritam. Ao menor sinal do que eles julgam como discriminatório, começam a bufar, ficam agitadinhos e te xingam dos nomes mais abjetos. Quem não concorda com algumas das maneiras como são conduzidas essa luta pela paz e justiça, serão chamados de homofóbicos, misóginos e racistas. Algumas vezes até de assassinos. Esse tipo de gente lê o que gostaria de achar que leu, dificilmente o que você realmente escreveu. Lola, por exemplo, disse que meu texto é contra gays. Não sei como funciona a cabeça de Lola, mas reli o texto dezenas de vezes e não encontrei a parte onde falo que sou contra gays.

A PLC 122

O que me assuta é que esses alguns que lutam contra a homofobia, pedindo pela aprovação da PLC 122 o mais rápido possível, são os que costumam enxergar homofobia onde ela não existe, como no meu texto.O meu texto não é homofóbico, mas esses alguns enxergaram homofobia ali. Logo, o que escrevi, segundo eles, seria um crime. E eu deveria ser preso ou processado. Na ideia desses alguns, eu seria um criminoso. Se meu texto é homofóbico, como alguns disseram, e se a PLC 122 estivesse vigente, eles teriam todo o direito de acionar a justiça para tomar alguma providência contra mim. Ou é isso, ou então esses alguns só falam da boca para fora o que é e ou que não é homofóbico. E chamam de homofóbico qualquer coisa contra a opinião que têm. Ou seja, exageram. E é nisso que eu acredito e vivo falando, eles exageram.

Mas uma vez aprovada a PLC 122, e eu espero que seja logo, o primeiro que vier chamar um texto meu de homofóbico, também vai poder ser preso ou processado por mim, afinal, se homofobia passa a ser crime de maior grandeza, como racismo, acusar alguém injustamente de homofobia também vai ser. Se homofobia passa a ser oficializada como monstruosidade, ora, ser chamado de monstro também vai ser. E o juiz, acredito, vai ter mais leituras de livros na vida do que aquele que me acusou de homofóbico. Com mais leituras de livros na vida, qualquer um percebe que o que escrevo não é homofóbico ou contra gays. O que escrevo pode não refletir a mesma opinião desses alguns, o que não quer dizer que o texto seja homofóbico nem nada.

Pasmem: pessoas têm opiniões diferentes.

Falta leitura

Passeando por blogs escritos por essa turma do bem, você percebe como falta leitura a essa gente. Eles interpretam o que querem interpretar. Acham que por terem lido oito livros a mais do que o resto da população, estão aptos a criticar um texto que sequer conseguiram interpretar.

Falta humor


Nunca na história humana houve tanta bundamolice. Julgam mais o cara que fez uma piada infeliz do que o cara que comete um crime de fato. Qualquer piada que você faz num boteco, quando posta no papel, hoje é motivo de processo. No boteco, com umas cervejas a mais, todo mundo é criminoso. O problema é quando vai parar na rede.

Falta vergonha na cara

Quando vier me xingar, ponha uma roupa. Seus insultos não valem nada quando seu avatar é um peito trabalhado e seu texto vier cheio de pontos de exclamação.

meu professor do mestrado

28 de junho de 2012
Por Tomas


Tenho um professor no mestrado que é contra símbolos religiosos. Dizem que na casa dele você não encontra nenhum crucifixo, santinha e muito menos a bíblia. Também não encontra calendários, pois este segue a contagem a partir de Cristo, coisa que ele é totalmente contra. Desde o primeiro dia de aula ele nos avisou que era contra calendários. Fez uma cara de nojinho, disse que era contra calendários e que não deveríamos nos referir ao ano em que estávamos a partir do nascimento de Cristo. Todos os trabalhos que deveríamos entregar a ele precisaria vir com qualquer outro tipo de numeração, menos a do calendário ocidental, com a contagem a partir do nascimento de Cristo. O mesmo valia para os dias da semana. Nada de falar segunda-feira, terça-feira, quarta-feira enquanto ele estivesse em aula. Os dias da semana, em português, também fazem referência à religião, ele nos explicou. E o meu professor do mestrado é contra tudo que faz referência à religião, Deus, Cristo e essas coisas.


Meu professor do mestrado ignora completamente a história da música ocidental. Na casa dele você não encontrará nada de Bach ou Haydn. Séculos de música e séculos de pintura são completamente ignorados pelo meu professor do mestrado. Ainda que ele viva falando em diversidade disso e diversidade daquilo, meu professor do mestrado é contra manifestações religiosas. Mesmo com mais de quatrocentos anos de história da música ocidental, o meu professor do mestrado só ouve o que foi feito a partir do último século, principalmente durante os últimos sessenta anos. O meu professor do mestrado gosta de jazz. Nos últimos meses, ele está orientando um colega que está fazendo um trabalho sobre jazz aplicado a Deleuze. É desse tipo de coisa que meu professor do mestrado gosta.


Por ser contra qualquer tipo de manifestação religiosa, meu professor do mestrado não descansa aos domingos. E também é o único professor do mestrado de que tenho conhecimento que não tira folga no Carnaval, na Páscoa, no dia de Nossa Senhora Aparecida ou em qualquer outra data comemorativa que faça referência à religião, Deus, Cristo e essas coisas. Ele tampouco comemora o ano novo, pois este segue o calendário a partir do nascimento de Cristo, coisa que abomina. Diz ele que tirar folga nessas datas vai contra sua filosofia não-crente. E que deveríamos respeitá-lo e respeitar sua filosofia não-crente de que ele vive falando.


Outro dia, perguntei ao meu professor do mestrado se ele tinha filhos. Ele disse que tinha dois, de casamentos diferentes e com nomes não-bíblicos, mas que não moravam com ele. Perguntei o que ele fazia com os filhos quando chegava a época do Natal. E ele me respondeu, todo garboso, que não fazia nada. Disse que seus filhos nunca ganharam presente de Natal, mas que eles sabiam desde pequenos sobre a filosofia não-crente do papai. Não que seus filhos entendessem coisa alguma sobre a filosofia dele, explicou, soltando um guincho. Mas tinham de respeitar. O mais velho nunca o perdoou por ser o único menino da classe que não ganhava presente no Natal. Mas isso era uma coisa que ele iria entender com o tempo, explicou meu professor do mestrado, todo garboso.


Quem não conhece meu professor do mestrado pode achá-lo um pouco estranho, mas tudo o que ele faz é coerente dentro de sua filosofia não-crente. E se tem uma coisa que ele nos ensinou é respeitar as diferenças. Hoje já estou acostumado com seus ensinamentos e palavrões. Sim, palavrões, pois por ser contra qualquer tipo de manifestação religiosa, meu professor do mestrado também não é capaz de usar interjeições. No lugar, usa palavrões. E nos pediu que evitássemos interjeições enquanto ele estivesse em aula. Então evitamos falar "vixe!", "nossa!", "graças a Deus!", "céus!", "ave!", "credo!", "cruzes!". E não nos sobra muitas interjeições para usar em aula. Com o tempo a classe começou a falar palavrões no lugar das interjeições. Quando o meu professor do mestrado cita algum pensamento brilhante de Foucault ou Derrida, é comum que gritemos "porra!", "caralho!" ou "puta que pariu!". Evitamos usar interjeições em respeito à filosofia não-crente de nosso professor. Estamos aprendendo. Um dia chegamos lá.



GUSTAVO METEDOR

21 de junho de 2012
Por Guy Franco
 Numa dessas noites pouco memoráveis do mês de abril, Gustavo, um garoto de programa, fora contratado por um cara que se dizia professor de cursinho. Curiosamente, Seu Lázaro não era nenhum cara engraçadão, por mais professor de cursinho que ele fosse. Até havia dias em que uma fagulha de piada cintilava dentro de sua cabeça, mas na hora de sair, a piada não saía. E era melhor, para o equilíbrio das forças naturais, que continuasse assim.


Seu Lázaro morava em Perdizes, no último andar de um prédio com aparência de embalagem de sabão em pó. Era um homem relativamente bem cuidado, meio careca, com olheiras profundas e corpo de quem desistiu de praticar exercícios físicos ainda no governo FHC. Assim que Gustavo entrou no apartamento dele, Seu Lázaro lhe pediu, com seu vozeirão pomposo, que esperasse um segundo só que ele já voltava.

 Beleza    foi tudo o que Gustavo conseguiu responder.

Quando Seu Lázaro voltou, estava usando uma jockstrap branca e carregava uma caixa de papelão, que jogou no chão como se fosse um filho seu.

Então o professor de cursinho se ajoelhou no meio da sala, de costas para Gustavo, e disse assim:

 Pega a torradeira que tem dentro da caixa    pediu, enquanto ia ficando de quatro, indo de encontro com a cara no chão.

Gustavo não estava ali para pensar muito. Pegou a torradeira num gesto lento mas triunfante.

 Agora pega o pão de forma e nos prepare torradas. Faz um lanchinho em cima de mim, seu puto!

E Gustavo não iria recusar o pedido, por mais absurda que fosse a recreação do professor de cursinho, ali, de quatro, com a bunda empinada.


Quando as torradas ficaram prontas, Gustavo passou geléia de damasco nelas e depois comeu em cima do professor, como se ele fosse uma mesinha de centro.


 Delícia! Deixa os farelos caírem nas minhas costas, vai.

E os farelos caíram em suas costas.

 Agora eu quero que você quebre com tudo uma torrada com geléia na minha cara, seu safado. Quebra, vai. Quebra!

E assim foi feito, sem cerimônia.

Seu Lázaro gemia com um apetite ridículo. Várias vezes pediu, curvado para o chão, com a bunda arrebitada na direção do lustre, para Gustavo usá-lo como um móvel – o professor de cursinho tinha fetiche de ser usado como mesinha. Que Gustavo pegasse um caderno de dentro da caixa e fizesse anotações em cima dele, que fatiasse cenouras e pepinos em suas costas, que jogasse as chaves do carro com tudo sobre ele. E Gustavo, com gestos de quem não tem pressa nesta vida, fez tudo isso. Por fim, pegou uma caneta piloto preta que estava no fundo da caixa e assinou a obra na parte exposta da bunda do Seu Lázaro:

GUSTAVO METEDOR

Com o dinheiro do programa, Gustavo comprou o box da 2ª temporada de Glee. O resto ele jogou no fundo de renda fixa.

guia prático de comportamento 2012

5 de junho de 2012
Por Guy Franco


Faça elogios excessivos a um povo somente se esse povo for desfavorecido e maltratado. E caso pertença a um povo já desfavorecido e maltratado, você só poderá fazer elogios excessivos a um povo ainda mais desfavorecido e maltratado do que o seu. O mesmo vale para pessoas, mesmo quando elas são humanas. Guarde os elogios excessivos aos mais desfavorecidos e maltratados do que você. Esse é o código usado na sociedade para identificar quem é inferior.



Você não é ninguém até receber uma ameaça de processo. Cartas de repúdio não servem para outra coisa senão enobrecer uma pessoa. No futuro, todos vão querer ser processados pelo que dizem. E serão processados. Mais fácil ser lembrado criando polêmica do que se doendo com piadinhas. 


Se a sua mediocridade estiver aparecendo, tente disfarçar com roupas e acessórios esquisitos ou penteados chamativos. Desvie a atenção de suas ideias lugares-comuns para o que tiver em mãos. Pode ser uma calça rasgada, uma tatuagem, piercing, acordeom ou chapinha. O importante é que sua mediocridade não fique muito exposta. Os looks servem para isso.


Pratique o bullying solidário.


Não reclame demais se você não pertence a nenhuma minoria desfavorecida ou será motivo de chacota. Antes de se indignar com qualquer injustiça social que acredita ter sofrido, procure se posicionar no mundo e observe aqueles que estão em situações piores. Uma dica para quem não é nordestino, negro, homossexual nem outra minoria desfavorecida, mas precisa expor sua indignação, é: faça várias tatuagens. Aqueles que têm várias tatuagens, por algum motivo, podem expor que se sentem perseguidos. O mesmo funciona com ciclistas.


Nunca atropelar alguém se: 1) você tem grana, é deputado ou filho de gente famosa; 2) a vítima for um ciclista; 3) a vítima for um yorkshire.


Desconfie de quem é simpático demais. Povo conhecido por ser simpático demais costuma ser violento demais. Quando for viajar, procure pesar: vale mais a pena visitar um lugar onde o povo é simpático mas violento ou um lugar onde o povo é mais fechado mas você não corre risco de morrer?


Em caso de boné virado para trás, dê a volta e converse com a nuca da pessoa.


Sorria mais. Vão pensar que você tem problema mental. E quem tem problema mental não pode ser julgado por ninguém.


Não faça bobagem se você for rico. Ter dinheiro, nos olhos da sociedade, é fator agravante quando se comete um crime.


Mas se a bobagem já estiver feita, pronuncie-se a favor do casamento gay. Por mais monstruoso que você seja, ao se pronunciar a favor do casamento gay, terá uma legião falando bem de você e compartilhando links a seu respeito. Faça um vídeo, crie uma hashtag, escreva um texto em seu blog com o tema. O casamento gay pode ser substituído pela legalização da maconha ou mais investimento na educação; mas o efeito é menor.


Ao dar uma palestra, ocupe pelo menos 20% do tempo dizendo que o Estado é laico. Solte um "o Estado é laico" a cada dez ou quinze minutos e aguarde o aplauso.


o bandido

26 de maio de 2012

Por Guy Franco

Está fora de moda falar de bandido. Todo mundo já teve um celular roubado nesta vida, mas toda a indignação, hoje em dia, está voltada para o homofóbico, o misógino e o que chamam de fascista. É mais fácil encontrar quem escreva textos cheios de sociologia barata sobre sujeitos que fizeram uma piada infeliz ou outra na internet e na TV do que sobre o cara que ameaça a sua vida para levar o carro – e que não são poucos. Capaz ainda de dizerem, cuspindo na sua cara, que o ladrão era vítima do sistema, enquanto o humorista, bem, esse é um fascista.

Nasci no Brasil, e isto aqui está infestado de bandidos. Tenho a suspeita de que seja efeito do calor e o povo alegre. Repare: todo povo com fama de simpático e alegre é violento. Calor humano, de repente, é malandragem. A mesma intimidade com que acham que têm direito de te abraçar sem te conhecer, é a intimidade que usam para enfiar a mão na sua bolsa para lhe roubar a carteira. Quando uma certa distância entre indivíduos não é respeitada, as desgraças são iminentes. Está tudo amarrado.



10 motivos pelos quais uma mãe gosta de ter um filho gay

12 de maio de 2012
Por Alex Passos

1 – Mais assuntos em comum. Eles podem tanto falar de homem quanto comentar a novela juntos.

2 – Gays dificilmente vão largar uma criança para a mãe cuidar.

3 – Sem filho para cuidar, ele pode ter mais tempo e dinheiro para gastar com a mãe. Filho gay costuma ser boa companhia para fazer compras e sabe escolher os melhores presentes.

4 – Ele não vai mentir (nem sabe como) se a mãe estiver mal arrumada.

5 – E se ela estiver mal arrumada, ele vai saber como dar um jeito no cabelo, maquiagem ou o que estiver de errado com o visual dela.

6 – O bom de ter um filho gay é poder usá-lo para decorar a casa.

7 – Dificilmente o almoço de domingo da mãe vai ser menos importante do que o futebol.

8 – Parte da graça de ter um filho gay é que a mãe pode falar mal da roupa dos outros com ele.

9 – Ele sabe quem são os artistas e subcelebridades de que a mãe vive se esquecendo o nome.

10 – Nenhuma outra mulher vai ser mais importante na vida dele do que a mãe.

bullying

8 de maio de 2012

 Por Guy Franco 

Querem acabar com o bullying pelos motivos errados. E, pelos motivos errados, montam uma campanha contra o bullying que no final dá ainda mais vontade de praticá-lo. Quem nunca praticou nenhum bullyinzinho na vida que atire a primeira pedra naquela menina esquisita ali.

O maior problema do bullying é que gera adultos insuportáveis. O que é essa gente preocupada com a vida dos outros senão os ex-zoados da escola? Às vezes o trauma é tão grande que essas pessoas perdem o bom senso e começam a se meter onde não são chamadas, como por entre os pneus de gordura de crianças obesas ou a comida presa no aparelho de dente de meninas estranhas. Essas pessoas começam a ver em tudo quanto é gente a imagem daqueles que praticavam bullying com elas. Assim, ao ouvir uma piada supostamente preconceituosa de um humorista na televisão, elas voltam no tempo e revivem os mesmos insultos direcionados ao seu cabelo ou estatura ou tamanho dos seios. É sufocante. Vivem como se fossem o centro do universo, onde toda e qualquer piada fosse criada unicamente para atingi-las. Por isso, quando crescem, tendem a virar defensores do bem, recheando seus blogs, mal escritos e com fundo colorido, com polêmicas envolvendo propaganda de cerveja escura e questionando a ausência de gordos na novela das nove. Alguns, ainda mais traumatizados, chegam até a escrever cartas de repúdio a qualquer coisa que vão contra suas ideias equivocadas de justiça.

Devemos combater o bullying para impedir o aumento dessa gente preocupada com a nossa vida; com o que devemos assistir na televisão, com o que devemos ler e que clipe podemos ver. Quem sabe se as campanhas fossem voltadas para esse fim, teríamos um resultado melhor, porque do jeito que está, com gente tentando enxergar estímulo ao bullying até em revistinha da Turma da Mônica, a vontade que fica não é outra senão de praticá-lo com quem tem esse tipo de pensamento medíocre.

pena que é crime falar o que pensa

30 de abril de 2012
Por Guy Franco

Pena que é crime falar o que pensa, senão eu falaria.

Se um dia um disco voador pousar na Praça dos Três Poderes, ninguém vai reparar nada. Solução para os prédios de Niemeyer: Pinta tudo de verde limão que a gente vê o que quiser por cima. Chroma Key há de salvar Carapicuiba, Osasco e M’Boi Mirim também.

Uma frustração: não ser filho do Didi.

Afinal, de quantas pessoas precisamos para fazer a diferença?

Ainda bem que passou um pouco essa moda de comercial exigir alguma coisa da gente com uma pergunta no final. Eu uso desodorante do Carrefour, e você? A nossa empresa já usa o novo cartucho de impressoa HP Lovecraft, e a sua? Isso parece coisa de quem gosta de se meter na sua vida, coisa de Estado grande. O único que pode exigir alguma coisa de mim é meu editor; se ele existisse. Os outros você pode mandar para o inferno. Se reclamarem, diga que viu uma matéria na Veja recomendando agressões físicas. Se forem dos que usam sandália papete, diga que viu a matéria na Carta Capital.

o moralistinha

18 de abril de 2012
Por Guy Franco

O rapaz passou a vida inteira mandando abaixo-assinado pela PLC122, links sobre homofobia, direitos humanos etc. Um dia, reclama que um amigo fez um discurso moralista em cima dele. E aí todos os links que o rapaz me passou perderam todo o sentido para mim. Quer dizer que nada do que ele me falou até ali era moralista também? Então era o quê? Quem decide o que é moralista e o que não é? Teria Fernanda Lima e Cauby Peixoto concepções diferentes do que é o moralismo?

Não entendo o rapaz. Moralista, hoje, é usado como ofensa, e das feias. Chame de puto, demônio, afetado, pinto pequeno - nada vai ter o mesmo efeito do que chamar alguém de moralista. Se a PLC não é moralista, ela é o quê? Imoralista é que não é. O rapaz vivia falando de fazer justiça, de fazer o bem. Até então ele era o meu amigo mais moralista. Agora não passa de um avatar em frente ao espelho do banheiro, com o celular aparecendo no canto.

Tomas

10 de abril de 2012
Por Guy Franco

Tomas nasceu muito novo; aos cinco já tocava piano e mandava os outros pastar levantando apenas um dedo. Sempre foi meio disléxico, abandonava as coisas pela metade, mas ainda hoje toca Satie como ninguém. Deve todos os conhecimentos ao pai, um senhor aposentado que trocou o piano por um apartamento na Praia Grande, onde vive com suas samambaias. Com ele também conheceu a literatura russa, Frank Sinatra e técnicas para continuar o sonho da noite anterior.

Não demorou muito para Tomas perceber que não pertencia a nenhum grupo. Nunca se deu bem com os outros. Não que fosse tímido, mas evitava contato com gente, principalmente as mais animadas.

Começou a ler muito cedo e, por ter o hábito de ler livros, esperava diálogos interessantes das pessoas. Coisa que nunca encontrou. Cansado, pegava um caderno e criava os diálogos ele mesmo. Depois desistia; abandonava as coisas pela metade.

Na adolescência, os demônios o atormentavam com crescente insistência. Deu nome a eles – Diara, a que nunca se viu e Pietro, o que anuncia desgraças. Havia tempo que não se interessava por mais ninguém além de seus demônios e personagens fictícios. Cada vez mais mergulhava em pensamentos sombrios. Pensou até em virar jornalista. Foi Diara, a que nunca se viu, que o impediu de cometer a tragédia.

Tomas tem uma inteligência acima da média, fuma cachimbo, odeia calça jeans e não vai a eventos onde tem gente. É ateu, mas sempre teve uma queda pelo catolicismo e o judaísmo. E vira os olhos toda vez que é lembrado de que o Estado é laico. Ama o extraordinário. Democracia é uma palavra que lhe embrulha o estômago; ética e diversidade lhe dá alergia. E se começam a falar sobre mazelas sociais numa conversa de bar, deixa o dinheiro da cerveja que bebeu na mesa e sai do recinto, sem se despedir.

É um dos poucos gays por opção; acha mulher muito enrolada; nunca teve paciência de chegar até uma vagina.

E aqui, outras bios.


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