Por Guy Franco, Júlia Marques, Alex, Daniel, Tomas e Edgar




Antes, leia a primeira e a segunda parte.No episódio anterior, vale lembrar, os pensamentos de Guy vazaram para a cabeça de seus personagens. Daniel fica assustado. Alex exige uma explicação. Júlia toma um suco de laranja com bastante gelo.
Júlia: Esse suco está com gosto de desodorante, daqueles de pobre. Alguém quer?
Guy: Eu quero, Júlia.
Alex: Não tenta fugir do assunto, Guy. Eu quero saber o que foi que aconteceu com a gente. Isso é perturbador. Consigo ouvir tudo o que você pensa, até seus comentários sobre proibição de sacolas plásticas em supermercados ou sobre o novo cinema coreano.
Guy: E não são ótimos os meus comentários sobre o novo cinema coreano?
Alex: O que você pensa não me interessa.
Guy: Sinceramente, não sei o que as pessoas vêem nesse Park Chan-wook. Os filmes dele são punhetinhas em nossa cara. E Kim Ki-duk então, um charlatão sem tamanho. Se eu fosse vocês, buscaria conhecer a filmografia completa de Hong Sang-soo. Ele é o cara.
Alex: Pára de enrolar.
Guy: Você falou pára com acento! Não sabe como admiro quem ainda fala a ortografia antiga. Sério mesmo. Os sagüis perderam parte da meiguice com a extinção do trema, não acham? Sagüi sem trema é menos sagüi. E onde foi se meter o acento agudo que ficava em diarréia, alguém pode me dizer?
Júlia: Do que vocês estão falando, gente?
Guy: Do novo acordo ortográfico.
Júlia: Nossa, odeio. Uma amiga minha entrou com um processo por danos morais porque tiraram o acento do nome dela, Andréia. Agora imagina ter confiscado um acento que você usou a vida inteira no seu nome. É pra querer bater a cabeça dessa gente na parede, não é não?
Guy: Mas, afinal de contas, o que eles fazem com os acentos, os tremas e os hífens confiscados?
Júlia: Dizem que usam pra financiar a saúde pública, mas a gente sabe como funciona a corrupção neste país. Fico revoltada!
Guy: Então vem, me abraça.
Júlia abraça Guy. Alex faz cara feia e morde os lábios.
Alex: Acabou a enrolação?
Guy: Ainda não.
Júlia: Por que você não vem enrolar com a gente também, Alex?
Alex: Não quero, obrigado.
Júlia: Vem, vai. Está quentinho aqui.
Alex: Estou esperando o Guy dar uma explicação.
Júlia: Que besteira! Todos nós esperamos uma explicação na vida, Alex. É do ser humano esperar uma explicação. Eu mesma espero várias, nem por isso eu deixo de jogar boliche, tomar um suco, enfim, aproveitar o momento. O mundo é dividido entre aqueles que esperam uma explicação de braços cruzados e aqueles que preferem viver. Escolha a vida você também, Alex.
Alex: A questão não é essa.
Guy: A questão não é essa nem outra. Chega de questões por hoje. Deixa isso para quem tem problema na cabeça. Deixa para psicólogos e barbudos engajados. E agora vai lá jogar boliche que chegou a sua vez.
Guy posiciona Alex para pegar a bola de boliche. Alex pega meio a contragosto. E quando joga, só consegue derrubar Charles (como é conhecido o último pino do canto esquerdo). Júlia se aproxima.
Júlia: Se você continuar a jogar a bola como um boneco de Olinda, continuará a derrubar somente Charles e Michaels (último pino do canto direito).
Júlia pega na cintura de Alex para mostrar como que se joga boliche que nem mulher, mas uma mulher profissional no assunto.
Júlia: Primeiro solte esses braços, alinhe os ombros e mostre a língua. Você é muito duro, não no bom sentido. Impressão minha ou você é canhoto?
Alex: Sou destro.
Júlia: Então sua bunda nunca pode estar para a direita. E levante mais o quadril. Isso. Agora pense que a bola é um crânio. Seu dedão vai na boca e os outros dedos vão nos olhos e no nariz.
Alex: Assim?
Júlia: Assim parece que você não tem intimidade com o crânio. Pense que este é o crânio de um amigo seu, um parente. Pense que é o crânio do seu namorado.
Então Alex joga novamente e, desta vez, a bola faz um efeito acrobático, derrubando todos os outros pinos que ainda estavam em pé.
Júlia: Viu como postura é tudo nesta vida?
Alex: Estou impressionado!
Júlia: Não fique.
Alex volta para o banco e senta no colo de Edgar.
Edgar: Parabéns!
Alex: Por quê?
Edgar: Você derrubou todos os pinos!
Alex: Não conseguiria sem a ajuda da Júlia.
Edgar: Ela é uma lésbica fantástica.
Com toda essa história, parece que Alex se esquece um pouco de Guy.
Alex: Não me esqueci não. Ou você explica por que sua voz está vazando em nossas cabeças ou eu...
Alex não encontra uma palavra. Claro, seu vocabulário é limitado.
Alex: Eu ouvi isso.
Guy: Está bem, vou contar, mas antes prometam que vão jogar doritos em vez de arroz no meu casamento, se é que um dia eu vou me casar.
Tomas: Isso é mesmo necessário? Não vejo ligação entre uma coisa e outra.
Guy: Vocês querem saber por que minha voz está vazando nas cabeças de vocês ou não querem? Então por favor, apenas prometam.
Todos juntos em uníssono: Prometemos.
Guy se ajeita no banco e molha os lábios com o suco de laranja com gosto de desodorante da Júlia.
Guy: Bem, durante o inverno de 2008 eu tive uma idéia: criar um blog coletivo. Naquela época eu não conhecia nenhum homossexual que quisesse escrever outra coisa que não fosse sobre celebridades, ativismo ou homoerotismo. Fiz uma longa busca no meio gay pra ver se encontrava alguém. Fui a boates, cafés, passeatas, encontros de yoga e mostras de cinema. Mas ninguém se encaixava no perfil que eu tinha em mente. Foi quando uma voz na minha cabeça disse para eu criar os outros autores do blog eu mesmo. No começo fiquei assustado, tive uma ereção, não sabia de onde vinha a voz, mas achei a idéia muito boa. E então eu criei vocês. Cada um foi criado a partir de uma característica marcante minha. Cada um de vocês representa um lado meu. Vocês são extensões de mim.
Todos se entreolham. Alex e Edgar até se enroscam com os olhares.
Júlia: Quer dizer que eu sou uma lésbica que existe dentro de você?
Guy: Exatamente. Você é a lésbica que não gosta de MPB que existe dentro de mim.
Daniel: E eu sou quem?
Guy: Você é o nerd magrinho com dificuldade de interagir com os outros.
Tomas: Agora faz todo o sentido ouvirmos sua voz em nossas cabeças, mas por que isso nunca aconteceu antes?
Guy: Não sei, mas desconfio que esteja acontecendo com vocês o mesmo que aconteceu comigo naquele inverno, três anos atrás. Acredito que exista uma voz na cabeça maior que tenha criado todos nós.
Tomas: Aquela mesma voz na cabeça que te pediu pra criar a gente?
Guy: Isso. E por trás dessa voz na cabeça deve existir outra voz na cabeça ainda maior, e assim até chegar na Voz na Cabeça Primordial, que eu desconfio ser uma nuvem cumulonimbus inteligente ou um satélite abandonado na época da Guerra Fria.
Edgar: Ou Deus.
Guy: Ou Deus, como vocês entenderem.
Alex: Essa idéia é ridícula. E não posso acreditar que eu sou parte de você. Não temos nada em comum.
Guy vira os olhos. Fica calado por alguns minutos, sem se mexer, até que uma de suas sobrancelhas se levanta, indignada.
Guy: Alex, eu não vou mais discutir com você. Desisto. Olhe ao seu redor. Seus amigos estão contentes por serem alguém. Você também deveria estar. Se tem orgulho de ser quem é, deveria me agradecer. Se gosta das suas tatuagens de estrelas no pescoço, deveria me tratar direito. É o mínimo. Eu gosto de você. Podemos não ter nada em comum, mas eu quis assim. E, viu, sua braguila está aberta.
Alex baixa a cabeça e olha para a calça. A braguila não está aberta coisa nenhuma. Mas a cabeça de Alex permanece naquela posição. Neste momento reconheço pela primeira vez a humildade de Alex. É como se a chama de seu orgulho, ou algo assim, apagasse um pouco e eu pudesse ver quem ele realmente é. Um Alex frágil, delicado e com sono. Um Alex que precisa de um carinho na cabeça de vez em quando.