sobre traumas, calçados e lésbicas fora do padrão

21 de março de 2012
Por Edgar Perné

Alex tem medo de insetos. Não pode ver um hamster na frente que já tem ataque e começa a babar pelas orelhas. Tentei explicar que aquilo era uma coisa mal resolvida na infância, provavelmente falta de atenção dos brinquedos. Segundo o livro Waltinho, Desce Daí!, tudo o que você faz na infância tem reflexo depois de adulto. Um garoto molestado pelo ensino construtivista, por exemplo, tem tudo para se tornar um adulto pervertido. Assim como bebês mergulhados em chocolate quente tendem a adquirir fobia de bigodes. Trabalhei com uma menina que se assustava toda vez que ouvia alguém mastigando doritos. Um dia, descobri que ela fora molestada por um busto de Villa Lobos no Teatro Municipal, quando era bem pequena.

Preciso comprar tênis novos. All Star, claro, já que é mais barato e vejo todo mundo na Augusta usando. Julgo as pessoas pelos calçados que elas usam. Quando é sandália de couro masculina não julgo, deixo que a natureza se encarregue da pessoa.

No fim de semana, eu e Alex fomos aprender a manejar arma de fogo com Júlia Marques. Ela participa da Federação Paulista de Tiro Esportivo e já ganhou várias medalhas. Difícil imaginar uma mulher tão linda e meiga praticando esse esporte. Júlia Marques foge tanto dos estereótipos que fica difícil saber de que maneira devemos interagir com ela. Nunca estive diante de uma lésbica que não gostasse de MPB. Não sei como lidar. Fico me mexendo muito, de modo falso, como faria um caixa da Renner diante de um andarilho.

será que ele é?

14 de março de 2012
Por Alex Passos

Será que é possível saber quem é gay só de olhar para a cara da pessoa? Será que existe um padrão no rosto que caracteriza um gay? Pessoalmente pode ser muito fácil de identificar um, mas e por foto, só observando os traços do rosto?

Elaborei um teste e vocês vão me dizer se é assim tão fácil quanto dizem de identificar um. Postei abaixo fotos de rosto de 18 homens: 9 gays e 9 heteros. Cada um tem um número. Respondam, nos comentários, usando os números, quem vocês acham que são gays e quais deles são heteros.

O resultado está aqui.






vitória gloriosa!

7 de março de 2012

homossexuais não são pobres coitados

1 de março de 2012
Por Guy Franco

Toda vez que alguém discursa sobre o direito de igualdade, logo penso: se buscam a igualdade, então provavelmente estão se sentindo por baixo. Ninguém que está bem se preocupa com igualdade. Isso é coisa de gente que está por baixo e quer subir. Bonito. Lutar por algo melhor é bonito. Não acredito que homossexuais estejam por baixo, mas ativismo, visto por alguns ângulos, me parece bonito. E eficiente até o momento em que um ou outro começa a se vitimizar demais, jogando a imagem de um homossexual lá para baixo como se todos fossem pobres coitados. A esses, peço que olhem para mim, nos olhos: homossexual não é nenhum pobre coitado e você sabe muito bem disso.

Bem, se um ativista ou algo parecido com isso quer ser respeitado, não é se fazendo de coitado que ele vai conseguir, muito pelo contrário, o coitadismo só evidencia a sua inferioridade; mostra o quanto você está por baixo, com cara de choro e fralda molhada.

Imagine uma menina vítima de bullying na escola. Sim, ela é toda esquisita e usa aparelho nos dentes; ideal para ser insultada pelos colegas mais estúpidos. Quanto mais uma menina dessas se fizer de coitada, mais bolinhas de papel e chiclete ela vai levar na cabeça e insetos continuarão a ser enfiados em suas narinas. Isso é tão óbvio quanto é verde um pão de forma esquecido há meses no fundo de um armário. Uma menina bobinha ou um garoto meio débil mental e rechonchudo vão ser sempre vítimas de insultos e agressões se eles estiverem por baixo e não souberem como se defender. Infelizmente é assim. E mesmo quando eles contarem para a professora que foram vítimas de rodeio de gordas, ou sabe-se lá que tipo de agressão as crianças estão sofrendo hoje em dia, elas continuarão a ser insultadas. Aliás, é no momento em que elas se levantam da carteira para contar à professora sobre a malcriação que os outros aprontaram com elas que sua inferioridade vai aparecer escrita na testa; e se elas chorarem, é aí que estarão fazendo papel de coitadas, mesmo se o choro for legítimo.

Ativistas sofridos são como essas garotas bobinhas que, em vez de mostrar que podem ser melhores do que aqueles que as insultam, levantam da carteira para chorar no ombro da professora. Como não existe ombro da professora para chorar quando você é um barbudo ativista, acreditam que o colo duro e gelado do Estado serve para se confortar. Ah, claro, o Estado agora é a sua mãe, né? Tudo bem, tudo bem, o Estado tem que punir vagabundo que agride homossexual mesmo; da mesma maneira que tem que punir vagabundo que agride gordas, anões, hobbits e mendigos alados, mas depender do Estado para resolver esse problema é como pedir para a sua mãe conversar com o coleguinha que enfiou uma tênia na sua lancheira. Isso pode até dar certo na hora, mas por trás estarão te chamando de “filhinho da mamãe”. E a relação de inferioridade só vai aumentar. A imagem do homossexual vai continuar por baixo, como pobre coitado que não sabe se defender sozinho.

Não é por coitadismo que se ganha respeito ou dignidade ou qualquer coisa parecida, mas pondo-se acima dessas pessoas. O que está faltando a muitos desses ativistas cheios de boas intenções (a transbordar de boas intenções), é conseguir mostrar que eles podem ser melhores. Sobressair mais e requerer menos. Conquistar, não pedir.

A campanha contra a homofobia é maior do que a campanha para um gay sair do armário. As duas têm o seu valor, mas uma atrapalha a outra. Se tudo o que sabem fazer é falar de violência contra os homossexuais, estes preferem ficar dentro do armário, protegidos, no escuro. A propaganda do que tem de pior em ser gay é maior do que o que tem de melhor. Como você acha que a sociedade recebe uma campanha em que ser gay é mostrado como a pior coisa do mundo? Está na hora de decidir: preferem mostrar que gays vivem apanhando e que precisam de proteção ou incentivar a turma a sair do armário e viver um pouquinho como gente?

Ativistas sofridos parecem concordar com os homofóbicos em um ponto: gays são pobres coitados. Os dois, pelo menos, contribuem para criar essa imagem. Não digo todos os ativistas, mas os coitados, os que perdem todo o tempo que têm tentando mostrar como sofrem. Parece que preferem mostrar que são vítimas, não pessoas. Repare como a imagem que fica depois dessas campanhas nunca é a de um ser humano, mas de uma massa de carne ensanguentada e sem expressão.

É só isso que eu queria falar. Podem voltar a fazer o que estavam fazendo antes.

globo vs capcom

29 de fevereiro de 2012
Por Guy Franco

Ouvi no metrô, linha verde, noite: “tenho aversão às mulheres”. Se não fosse a voz de frango, acreditaria tratar-se de misoginia, e das fedidas. Fora de contexto, todo gay é misógino. Se tem alguém que vive admitindo aversão às mulheres, são os gays. Mas aí seria misoginia dele ou homofobia minha chamando-o de misóginio? Questão para um Enem.

E quem venceria na disputa homofobia vs misoginia? O que é pior?

Eu tenho mania de pensar nessas disputas enquanto escovo os dentes. Vivo jogando gente em ringues imaginários. Meu sonho é trabalhar com videogame e criar o Globo vs Capcom, com time de Zorra Total contra time de Street Fighter. Pedro Bial vs M.Bison; Fátima Bernardes vs Chun-li; Louro José vs Megaman; Bruno de Luca vs Chris Redfield. Penso até em golpes, combos e especiais. Desenvolvi mentalmente uma sequência de 54 hits com o Faustão. Ele usa o microfone, a cartelinha do programa, barrigada, enquanto o adversário vai tropeçando e indo de cara em bolos com velas, como nas videocassetadas. Ô loko, bicho – ele diz quando ganha a batalha. Esse aí é fera – quando o oponente volta no segundo round.

Meu talento está sendo desperdiçado. Japoneses e judeus precisam me descobrir.

o barbudo sensível

17 de fevereiro de 2012
Por Guy Franco

Barbudos sensíveis são gente fofa, peludinha, geralmente domesticada na universidade. Lembram ursinhos carinhosos, tanto pela bondade, que exala dos poros, quanto pela camada de pelos. A barba é um disfarce social para esconder impurezas visíveis a olho nu.

Os barbudos sensíveis são calorosos, abraçam, riem, mas com uma melancolia safada, sofridinha. A impressão que fica é de que seus corações sofrem, que qualquer coisa os fazem chorar.

Amam a humanidade. Detestam as injustiças. Combatem o mal; ou o que eles entendem por mal, porque bem e mal não existem, eles dizem. O que define um barbudo sensível é menos a barba e mais o desejo por justiça. Detestam o Datena, mas são iguais a ele na hora de repassar links sobre as injustiças do mundo; indignados e revoltadinhos. Acreditam em responsabilidade social. Vivem pensando nos outros, ficam preocupados com a vida dos outros, querem se meter na vida dos outros. Escondem no bolso planos amassados para um mundo melhor e o plano deles é sempre o melhor do mundo. São contra a intolerância, e ai de você discordar de alguma opinião deles.

São lentos - lentos não, moles, molengas. São tão homens quanto um pudim. A versão feminina não tem barba, preferem o vestidinho. Quando fazem cinema são melancólicos; na poesia só sabem chorar; na vida sofreram bullying. São anos de bullying para se tornar um barbudo sensível digno de respeito. E se querem salvar o mundo, pode ter certeza, é porque querem se salvar dele. Não confundir isso com altruísmo.


casamento igualitário

14 de fevereiro de 2012

o beijo gay na novela

7 de fevereiro de 2012
Por Guy Franco

Há muito tempo deixaram de pedir o beijo gay em novela e passaram a exigi-lo. Sob ameaças e protestos, a Globo faz que não ouve e prefere tomar uma água com gás. Um dia o beijo gay foi um bichinho inofensivo esperando a maioridade para poder aparecer em público. Hoje virou esse monstro de cativeiro. Enjaulado, ele não tem muito o que fazer senão comer e dormir - e por isso engorda tanto. O beijo gay sofre de obesidade mórbida. E no dia em que a Globo o liberar, o mundo vai ficar horrorizado com sua aparência. Até podemos nos mobilizar para tirá-lo de lá, mas antes precisamos cuidar melhor do bicho parando de jogar tanta porcaria na jaula para fazê-lo crescer desse jeito. O beijo gay já está irreconhecível.

Edgar Perné

3 de fevereiro de 2012
Por Guy Franco

Dizem que a nossa infância é sempre melhor do que a infância dos outros. Mentira. Edgar prefere nem se lembrar dessa época. Quem despreza a infância ganha traços visíveis no rosto depois de adulto. Acontece alguma coisa ao redor dos olhos e em cima do nariz. Difícil de explicar assim sem mostrar sequência de imagens no Power Point.

Edgar é desses. A pista mais próxima de que foi uma criança infeliz estão nas roupas que usa, nas bandas que ouve e nos filmes que vê; gosta de tudo muito antes de virar modinha. Chamam isso de alternativo, indie, às vezes até de hipster. Edgar não gosta dos rótulos. Explica que para ser alternativo precisa sofrer muitos anos de bullying quando criança. De repente é por isso que Edgar não fala da infância, vai saber.

O cabelo castanho claro, nem liso nem ondulado, a barba por fazer, o nariz que chama atenção e a altura de um avestruz decepado na jugular, Edgar é um cara bonito e não tem a voz chorosa da sua geração. E por incrível que pareça só tem uma peça de roupa xadrez no armário, uma camisa que usa quando não quer ser reconhecido na rua Augusta.

Prefere não se definir politicamente, mas acredita em responsabilidade social; só não sabe o nome que dão a isso. Mas não é de se indignar com tudo e dificilmente se dói pelos outros. Ele é o alternativo no meio alternativo.

Namora Alex desde 2008. E vivem brigando. São tão diferentes que parece terem sido feitos com séculos de distância. Mas alguma coisa os mantém juntos por todo esse tempo. Ele não sabe bem o que é e tem preguiça de jogar no Google para tentar descobrir. Edgar não tem saco para assuntos mundanos.

14 projetos de lei que poucos comentam

31 de janeiro de 2012
Por Alex Passos

PLC 124b – Projeto Sailor Moon. Crimes contra cosplays de anime serão punidos em nome da lua.

PLC 398 – Criminaliza o uso da língua portuguesa por priorizar o gênero masculino. O projeto de lei visa criar a língua portuguesi, que faz cair o gênero masculino e feminino.

PLC 399 – Criação do gênero travesti na língua portuguesa, com artigo “i”. Ex: I travesti foi ao centro comprar umi peruca loiri. Projeto de lei contra a transfobia.

PLC 510 – Projeto de lei pela padronização de risadas na internet. Mulheres riem hahaha. Homens riem hohoho. Travestis riem hihihi. E hehehe todos podem usar.

PLC 511 – Criminaliza a risada KKK por fazer apologia racista.

PLC 189a – Projeto de lei Foucault Só Lá Fora. Criminaliza citações de Foucault em ambientes fechados.

PLC 404 – Error, Projeto de lei não encontrado.

PLC 192b – Projeto de lei Minoria é Maioria, pela criação de mais minorias desfavorecidas para que assim todos possam sentir-se incluídos em alguma minoria.

PLC 193b – Projeto de lei Coxinha Aplicada a Deleuze. Visa o recorte da pluralidade culinária de botecos imundos para estimular a voz do frango na fritura deleuziana, alternando vozes poéticas e pessoais, mergulhando de vez no ponto de vista do salgado e seu corpo.

PLC 804 – Projeto de lei Bebê Não É Bola que proíbe chutar bebês em vias públicas.

PLC 124 – Projeto de lei Sucrilho Homoafetivo em que toda embalagem de sucrilho deverá vir com uma mensagem contra a homofobia como “somos todos iguais” ou “homofobia já era” ou qualquer coisa parecida.

PLC 690 – Projeto de lei Vegan Contraditório, pela criminalização de vegans a favor do aborto.

PLC 566 – Projeto de lei que criminaliza a combinação de frango com catupiry em todo território nacional.

PLC 720 - Projeto de lei para criar assento reservado em transporte público para quem estiver lendo um livro.


a reconciliação - última parte

26 de janeiro de 2012
Por Guy Franco, Júlia Marques, Alex, Daniel, Tomas e Edgar




Antes, leia a primeira e a segunda parte.

No episódio anterior, vale lembrar, os pensamentos de Guy vazaram para a cabeça de seus personagens. Daniel fica assustado. Alex exige uma explicação. Júlia toma um suco de laranja com bastante gelo.

Júlia: Esse suco está com gosto de desodorante, daqueles de pobre. Alguém quer?

Guy: Eu quero, Júlia.

Alex: Não tenta fugir do assunto, Guy. Eu quero saber o que foi que aconteceu com a gente. Isso é perturbador. Consigo ouvir tudo o que você pensa, até seus comentários sobre proibição de sacolas plásticas em supermercados ou sobre o novo cinema coreano.

Guy: E não são ótimos os meus comentários sobre o novo cinema coreano?

Alex: O que você pensa não me interessa.

Guy: Sinceramente, não sei o que as pessoas vêem nesse Park Chan-wook. Os filmes dele são punhetinhas em nossa cara. E Kim Ki-duk então, um charlatão sem tamanho. Se eu fosse vocês, buscaria conhecer a filmografia completa de Hong Sang-soo. Ele é o cara.

Alex: Pára de enrolar.

Guy: Você falou pára com acento! Não sabe como admiro quem ainda fala a ortografia antiga. Sério mesmo. Os sagüis perderam parte da meiguice com a extinção do trema, não acham? Sagüi sem trema é menos sagüi. E onde foi se meter o acento agudo que ficava em diarréia, alguém pode me dizer?

Júlia: Do que vocês estão falando, gente?

Guy: Do novo acordo ortográfico.

Júlia: Nossa, odeio. Uma amiga minha entrou com um processo por danos morais porque tiraram o acento do nome dela, Andréia. Agora imagina ter confiscado um acento que você usou a vida inteira no seu nome. É pra querer bater a cabeça dessa gente na parede, não é não?

Guy: Mas, afinal de contas, o que eles fazem com os acentos, os tremas e os hífens confiscados?

Júlia: Dizem que usam pra financiar a saúde pública, mas a gente sabe como funciona a corrupção neste país. Fico revoltada!

Guy: Então vem, me abraça.

Júlia abraça Guy. Alex faz cara feia e morde os lábios.

Alex: Acabou a enrolação?

Guy: Ainda não.

Júlia: Por que você não vem enrolar com a gente também, Alex?

Alex: Não quero, obrigado.

Júlia: Vem, vai. Está quentinho aqui.

Alex: Estou esperando o Guy dar uma explicação.

Júlia: Que besteira! Todos nós esperamos uma explicação na vida, Alex. É do ser humano esperar uma explicação. Eu mesma espero várias, nem por isso eu deixo de jogar boliche, tomar um suco, enfim, aproveitar o momento. O mundo é dividido entre aqueles que esperam uma explicação de braços cruzados e aqueles que preferem viver. Escolha a vida você também, Alex.

Alex: A questão não é essa.

Guy: A questão não é essa nem outra. Chega de questões por hoje. Deixa isso para quem tem problema na cabeça. Deixa para psicólogos e barbudos engajados. E agora vai lá jogar boliche que chegou a sua vez.

Guy posiciona Alex para pegar a bola de boliche. Alex pega meio a contragosto. E quando joga, só consegue derrubar Charles (como é conhecido o último pino do canto esquerdo). Júlia se aproxima.

Júlia: Se você continuar a jogar a bola como um boneco de Olinda, continuará a derrubar somente Charles e Michaels (último pino do canto direito).

Júlia pega na cintura de Alex para mostrar como que se joga boliche que nem mulher, mas uma mulher profissional no assunto.

Júlia: Primeiro solte esses braços, alinhe os ombros e mostre a língua. Você é muito duro, não no bom sentido. Impressão minha ou você é canhoto?

Alex: Sou destro.

Júlia: Então sua bunda nunca pode estar para a direita. E levante mais o quadril. Isso. Agora pense que a bola é um crânio. Seu dedão vai na boca e os outros dedos vão nos olhos e no nariz.

Alex: Assim?

Júlia: Assim parece que você não tem intimidade com o crânio. Pense que este é o crânio de um amigo seu, um parente. Pense que é o crânio do seu namorado.

Então Alex joga novamente e, desta vez, a bola faz um efeito acrobático, derrubando todos os outros pinos que ainda estavam em pé.

Júlia: Viu como postura é tudo nesta vida?

Alex: Estou impressionado!

Júlia: Não fique.

Alex volta para o banco e senta no colo de Edgar.

Edgar: Parabéns!

Alex: Por quê?

Edgar: Você derrubou todos os pinos!

Alex: Não conseguiria sem a ajuda da Júlia.

Edgar: Ela é uma lésbica fantástica.

Com toda essa história, parece que Alex se esquece um pouco de Guy.

Alex: Não me esqueci não. Ou você explica por que sua voz está vazando em nossas cabeças ou eu...

Alex não encontra uma palavra. Claro, seu vocabulário é limitado.

Alex: Eu ouvi isso.

Guy: Está bem, vou contar, mas antes prometam que vão jogar doritos em vez de arroz no meu casamento, se é que um dia eu vou me casar.

Tomas: Isso é mesmo necessário? Não vejo ligação entre uma coisa e outra.

Guy: Vocês querem saber por que minha voz está vazando nas cabeças de vocês ou não querem? Então por favor, apenas prometam.

Todos juntos em uníssono: Prometemos.

Guy se ajeita no banco e molha os lábios com o suco de laranja com gosto de desodorante da Júlia.

Guy: Bem, durante o inverno de 2008 eu tive uma idéia: criar um blog coletivo. Naquela época eu não conhecia nenhum homossexual que quisesse escrever outra coisa que não fosse sobre celebridades, ativismo ou homoerotismo. Fiz uma longa busca no meio gay pra ver se encontrava alguém. Fui a boates, cafés, passeatas, encontros de yoga e mostras de cinema. Mas ninguém se encaixava no perfil que eu tinha em mente. Foi quando uma voz na minha cabeça disse para eu criar os outros autores do blog eu mesmo. No começo fiquei assustado, tive uma ereção, não sabia de onde vinha a voz, mas achei a idéia muito boa. E então eu criei vocês. Cada um foi criado a partir de uma característica marcante minha. Cada um de vocês representa um lado meu. Vocês são extensões de mim.

Todos se entreolham. Alex e Edgar até se enroscam com os olhares.

Júlia: Quer dizer que eu sou uma lésbica que existe dentro de você?

Guy: Exatamente. Você é a lésbica que não gosta de MPB que existe dentro de mim.

Daniel: E eu sou quem?

Guy: Você é o nerd magrinho com dificuldade de interagir com os outros.

Tomas: Agora faz todo o sentido ouvirmos sua voz em nossas cabeças, mas por que isso nunca aconteceu antes?

Guy: Não sei, mas desconfio que esteja acontecendo com vocês o mesmo que aconteceu comigo naquele inverno, três anos atrás. Acredito que exista uma voz na cabeça maior que tenha criado todos nós.

Tomas: Aquela mesma voz na cabeça que te pediu pra criar a gente?

Guy: Isso. E por trás dessa voz na cabeça deve existir outra voz na cabeça ainda maior, e assim até chegar na Voz na Cabeça Primordial, que eu desconfio ser uma nuvem cumulonimbus inteligente ou um satélite abandonado na época da Guerra Fria.

Edgar: Ou Deus.

Guy: Ou Deus, como vocês entenderem.

Alex: Essa idéia é ridícula. E não posso acreditar que eu sou parte de você. Não temos nada em comum.

Guy vira os olhos. Fica calado por alguns minutos, sem se mexer, até que uma de suas sobrancelhas se levanta, indignada.

Guy: Alex, eu não vou mais discutir com você. Desisto. Olhe ao seu redor. Seus amigos estão contentes por serem alguém. Você também deveria estar. Se tem orgulho de ser quem é, deveria me agradecer. Se gosta das suas tatuagens de estrelas no pescoço, deveria me tratar direito. É o mínimo. Eu gosto de você. Podemos não ter nada em comum, mas eu quis assim. E, viu, sua braguila está aberta.

Alex baixa a cabeça e olha para a calça. A braguila não está aberta coisa nenhuma. Mas a cabeça de Alex permanece naquela posição. Neste momento reconheço pela primeira vez a humildade de Alex. É como se a chama de seu orgulho, ou algo assim, apagasse um pouco e eu pudesse ver quem ele realmente é. Um Alex frágil, delicado e com sono. Um Alex que precisa de um carinho na cabeça de vez em quando.


a reconciliação - segunda parte

25 de janeiro de 2012
Por Guy Franco, Júlia Marques, Alex, Daniel, Tomas e Edgar




Antes, leia a primeira parte aqui.

Guy, Júlia, Edgar, Alex, Tomas e Daniel estão no boliche de um shopping pegando os sapatos especiais para jogar.

Júlia: Essa é a hora que algum de vocês faz a piadinha ligando o número do meu sapato com o meu lesbianismo. Vai, estou esperando, podem fazer.

Guy: Fica tranquila, Júlia, não somos desses. Pelo menos eu não sou. Meu repertório com piadas de lésbicas é bem limitado, mas não chega nesse nível. Fico restrito na coisa dos dedos das lésbicas; na destreza com siririca e violão.

Júlia: O que, convenhamos, é uma imagem muito melhor do que o da caminhoneira, como ficamos conhecidas nos anos 90 por causa de um comercial estúpido de pneus.

Guy: Ah, muito melhor, muito melhor. Tenho um projeto aí pra substituir o uso de caminhoneira por encanadora. Pretendo usar as lésbicas mais influentes do Twitter e da MPB pra espalhar o conceito. O que você acha?

Júlia: Olha, não sei se encanadora pega. De repente metalúrgica ou cobradora de lotação soe melhor. É uma sugestão. Mas o caminho é mais ou menos esse mesmo.

Alex está do lado de Guy e Júlia, calçando os sapatos. Está claro que ele evita olhar diretamente para Guy.

Alex: (para Edgar) Esse sapato me deixa gordo?

Edgar: Hm, não sei. Vira de costas.

Alex vira de costas.

Edgar: Não te deixa gordo, mas aumenta consideravelmente as suas narinas.

Alex põe a mão na fivela do cinto.

Alex: Vou tirar o cinto então.

Edgar: Viu, deixa eu te pedir uma coisa, Alex: melhora esse seu humor, vai, vamos jogar boliche como pessoas civilizadas, por mais absurda que pareça a idéia de pessoas civilizadas jogando boliche. Esquece o que aconteceu em Itanhaém, procura se entender com o Guy.

Alex vira os olhos. Seu pescoço ganha vida e sua cabeça começa a se mexer demais.

Alex: Eu não vou perdoar o que ele fez.

Edgar: Não precisa perdoar, mas esquece, deixa pra lá, enterra essa história e põe uma penteadeira por cima.

Alex: Não consigo. Ele é manipulador, nos controla, põe falas em nossas bocas!

Edgar: Se não fosse assim estaríamos mudos ou cuspindo marimbondos.

Alex: Antes mudo do que manipulado. Não sou uma marionete.

Tomas se aproxima deles comendo uma coxinha.

Tomas: Do que vocês estão falando?

Alex: De marionetes.

Tomas: Esse é um assunto polêmico.

Um funcionário do boliche com cara de lego laboratório aparece para mostrar a pista que eles devem ir. É a 12. E eles vão até lá. Júlia é a primeira a jogar, por isso masca chiclete.

Júlia: Faz tempo que não jogo isso.

E ela derruba todos os pinos. O próximo é Daniel. Ele é meio desengonçado e não parece ter afinidade com os joelhos. Os estereótipos, como sempre, estão certos: nerds não sabem controlar o corpo direito.

Daniel: Estereótipos?

Daniel olha para Guy indignado.

Daniel: Ei, eu não estou indignado.

Guy: Você ouviu isso, é?

Daniel: Foi você que disse, não foi? Escutei sua voz na minha cabeça me chamando de nerd e indignado.

Guy: Desculpa, não era pra você ter escutado. Eu achei que estivesse narrando pra dentro. Pelo jeito saiu.

Tomas: Eu também ouvi. Pensei que fosse coisa da minha cabeça. Concordo com você, Guy, o funcionário lá tem cara de lego mesmo.

Guy: Meu Deus, não era pra isso acontecer! Minhas narrações estão vazando na cabeça de vocês!

Alex: É isso que dá ter inventado a gente.

A serenidade com que Alex diz essas palavras parece esconder alguma coisa. Afinal, a situação era um tanto absurda para ele disfarçar sua perplexidade agora.

Alex: Não estou disfarçando nada.

Guy: Você também está ouvindo as narrações?

Alex: Perfeitamente e exijo uma explicação.

Agora que todos ouvem minha narração, não posso bobear. Então, em vez de narrar o que está acontecendo no boliche, vou procurar um outro assunto qualquer. Já sei, vou discutir o aborto. Já repararam que sempre que falam de aborto, uma hora acabam falando que só os ricos têm acesso ao aborto e que pobres também deveriam ter? Quem insiste nisso deixa claro que detesta ver pobre nascendo. Todo mundo que é a favor do aborto porque diz controlar a taxa de natalidade, na verdade, detesta pobre. É o repúdio ao pobre que faz discutir tanto sobre o acesso ao aborto por pessoas de baixa renda, não repararam nisso ainda?

Alex: Que pensamento ridículo.

É isso mesmo, vocês ouviram o que eu disse. Nossa, como sou polêmico! E quem não é polêmico quando expõe o que pensa? Bem-vindos à minha cabeça. Aqui vocês encontrarão tudo o que eu penso, sem filtros ou efeitos de instagram. Aliás, o que é esse instagram? Ouvi alguém dizer por aí: Agora que as câmeras digitais estão com uma qualidade incrível, inventamos um jeito de estragar as fotos. Concordo. Bom, eu acho que isso é tudo o que eu tinha para falar, mas a história ainda não acabou. Amanhã tem a última parte de A Reconciliação. Eu espero que vocês recomendem aos amigos, passem links, apertem o botão curtir na página do facebook e aqui embaixo também. É isso mesmo, estou falando tudo o que penso agora.

Alex: Não fuja do assunto.

Guy: Não estou fugindo. Vou deixar pra amanhã.

a reconciliação - primeira parte

24 de janeiro de 2012
Por Guy Franco, Júlia Marques, Alex, Daniel, Tomas e Edgar




Edgar, Alex e Tomas estão bebendo no bar do boliche de um shopping sem critérios de decoração, na zona sul de São Paulo. Faz sol e quase não venta. É um belo dia para jogar.

Tomas: Estou pensando em adotar um gato.

Alex: O animal, você diz?

Tomas: Isso. Estou me sentindo muito sozinho ultimamente. Quem sabe um gato me tira desse tormento.

Alex: Não é de um gato que você está precisando, Tomas. É de um homem peludo. E você sabe disso. (olha para Edgar) Não acha, Cereja?

Cereja é um dos três apelidos carinhosos que Alex usa em locais públicos para chamar Edgar. Os outros são bombom e salpicante.

Edgar está olhando para a porta automática da entrada, distraído. Parece preocupado com alguma coisa. Coça o nariz, morde os lábios e bate os pezinhos na velocidade 4.

Edgar: Gim com limão.

Alex: Que?

Edgar: Desculpa, não entendi a pergunta direito, mas a resposta para todas elas é gim com limão.

Alex: O Tomas acabou de nos contar que está mal e você aí, viajando. Ajuda ele. O amigo é seu.

Edgar: Tomas, você precisa de alguém.

Alex: Foi o que eu acabei de dizer pra ele.

Edgar: Mas não se apresse. Quando você menos espera, alguém aparece. É clichê? É. Rima? Também. Mas os melhores conselhos são aqueles que cabem em letras de musicais. Foi na voz de Judy Garland em Agora Seremos Felizes que eu decidi abandonar o bodybuilding, lembram?

Alex: Eu não te conhecia nessa época.

Tomas: (para Alex) O Edgar era viciado em bodybuilding. Começou fazendo musculação pra perder massa cinzenta e terminou viciado em fisiculturismo. Ele até tinha um boneco de massinha e vivia modelando os músculos dele, buscando a definição perfeita, como ele dizia.

Alex: Por que é que você nunca me contou isso, bombom? Você modelava bonecos?

Edgar: O Clayton. E ele não era feito de massinha. Era feito de argila sintética. Mas abandonei essa vida depois de descobrir os musicais americanos.

Alex: Que bom.

A porta automática de vidro abre. Entra Daniel, usando óculos e uma camiseta verde-rg do Pacman.

Daniel: Oi, gente.

Todos: Oi, Daniel.

Daniel não bebe, pede uma Pepsi de frutas vermelhas. Mas o garçom não tem bons modos. E é feio. E fala errado. E, de lado, é incrivelmente parecido com um camundongo.

Alex: Quanto tempo, Daniel. O que tem feito da vida?

Daniel: O de sempre.

Alex: Continua lá na Aragorn?

Daniel: Faz tempo que saí de lá. Agora só pego frila de ilustração. Sabe a última Superinteressante com um vudu do Neymar na capa?

Alex: Hã.

Daniel: Fui eu que fiz.

Alex: Que bacana, Dan!

Daniel: E mais alguém vem ou é só a gente mesmo?

Edgar: Vem. A Júlia vem com o Guy. Daqui a pouco devem estar aqui. A Júlia tem o hábito de se atrasar um pouco para gerar comentários sobre si.

Daniel: O Guy vem, é? (diz, um pouco espantado, olhando para Alex)

Edgar: Vem.

Para quem não sabe, Guy e Alex não se falam desde setembro de 2010, quando animais mitológicos apareceram numa praia de Itanhaém, onde eles estavam passando o feriado. Guy, o responsável pelo incidente, usou os animais para explicar a todos que eles eram personagens criados em sua cabeça. Alex foi o único que não o perdoou - não aceitava ser um personagem criado por alguém, muito menos por Guy.

O encontro no boliche, mais do que um momento para se divertir, é a oportunidade que Edgar e Tomas criaram para Alex e Guy voltarem a se falar. Ninguém sabe no que isso vai dar. Vale dar uma conferida.

Tomas: Ó lá, eles chegaram.

Agora entra Guy e Júlia pela porta automática. Estão conversando ruidosamente, dando gargalhadas e chaves de braço um no outro, até que o olhar de Guy e Alex se encontra. O ar fica carregado (vulgo climão). Júlia procura uma menta na bolsa para refrescar o hálito.

mais um texto sobre homofobia

20 de janeiro de 2012
Por Guy Franco

Volta e meia cai na minha frente um link sobre a homofobia do momento. Bobo, eu clico e quase nunca encontro a homofobia que me prometeram. Dizem que está lá, na campanha publicitária da cachaça, na embalagem do salgadinho, no comentário do humorista, mas eu juro que não vejo.

Homofobia rende mais do que banner com gente pelada. Um link bobeando na tela e o nosso dedo escapa e acaba clicando mesmo. O mercado de homofobia, mais do que um pênis, tende a crescer.

Homofobia está na moda e pode ser qualquer coisa. Se Toy Story 3 tem um Ken afeminado, pronto, aparece alguém dizendo que ali tem homofobia. Há quem encontre homofobia em sucrilhos, que dirá em desenhos animados.

Acredito que parte da homofobia é estimulada por esse nome besta que deram a crimes de ódio contra homossexuais. Não é homofobia quando nenhum dos envolvidos mija de medo. Mudem esse nome.

Gostaria de saber em que mundo alternativo vivem todos esses homofóbicos que dizem existir. Primeiro: com quem eles cortam o cabelo? Segundo: quem passa maquiagem neles? Pensando bem agora, faz sentido alguns dos chamados neonazistas serem carecas, eles mesmos devem passar a maquininha para evitar contato com gays, mas quem lustra a careca deles? E usam luvas?

A vida de um homofóbico é muito limitada; não podem usar produtos da Apple, não podem ser atendidos por comissários de bordo, não podem ser maquiados para aparecer na TV, não podem desfilar no carnaval, não podem falar francês, não podem aprender outras línguas com professores. E se apanham na rua, devem ser tratados em casa, pela avó, pois não podem entrar em contato com enfermeiros também. Com essa limitação toda, não tem como um homofóbico chegar a todos esses lugares que dizem haver homofobia. Estão superestimando demais essa gente.

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